O PROBLEMA CENTRAL DO CRISTIANISMO

Todos os seguidores do cristianismo, sejam eles católicos ou protestantes, justificam a sua religião citando passos do Novo Testamento onde está escrito que Jesus cumpriu certos milagres, que profetizou determinados eventos e que disse isso ou aquilo, alegando que se trata de verdades absolutas nas quais temos o dever de acreditar cegamente. E é justamente sobre as Escrituras que se rege aquela imensa construção teológica que é doutrina cristã. Agora é evidente, e o leitor intelectualmente honesto não poderá que concordar, que qualquer construção teórica, mesmo a mais elaborada e complexa, perde valor se os seus alicerces não forem bem comprovados e isentos de dúvidas. Em outras palavras, é necessário saber até que ponto os Evangelhos relatam uma verdade histórica ou se apenas refletem uma visão apologética e catequética apta a reforçar a fé das primeiras comunidades cristãs: esse é o verdadeiro problema central do cristianismo. No testo que segue será mostrada e explicada a gênese e a correta sequência dos livros que compõem o N.T. buscando elucidar se e quando sofreram alterações significativas.

Antes de proceder, é oportuno lembrar que nenhum dos Evangelhos, na forma como os conhecemos hoje, foi escrito por um único autor, assim como, por exemplo, Machado de Assis foi o único autor do “Dom Casmurro”. Trata-se, ao contrário, de obras estratificadas, construídas ao longo de muitos anos (até séculos), acrescentando progressivamente material oriundo de narrativas anedóticas e/ou obras pseudo-literárias nem sempre fidedignas. De acordo com o estudioso David Donnini, a representação da origem do Novo Testamento não vai além de um clichê apenas mitológico e lendário e a estrutura da estratificação que se encontra nos textos evangélicos, pode ser sinteticamente resumida nas seguintes camadas:

  1. tradições que remontam ao messianismo hebraico;
  2. tradições que remontam às seitas chamadas hebraico-cristãs (entre as quais podemos pôr as testemunhas de alguns seguidores de Jesus), que existiam originariamente em forma oral ou escrita nos idiomas semíticos (aramaico e hebraico);
  3. tradições orais nascidas com o ensino de Paulo de Tarso, em oposição com os seguidores de Jesus;
  4. tradições escritas produzidas pelos seguidores de S. Paulo, que operaram em ambientes romanos ou helenístico e escreveram em grego;
  5. correções e acréscimos feitos durante a obra progressiva de canonização feitas por pelos Padres da Igreja;
  6. ulteriores correções e acréscimos, sucessivos às formulações teológicas saídas do Concílio de Niceia no 4° século;
  7. alterações sucessivas feitas, por exemplo, durante a tradução do grego antigo para os idiomas modernos.

Todos os estudiosos concordam que o primeiríssimo Evangelho foi a “Tradição oral” transmitida pelas comunidades cristãs de Jerusalém e das redondezas. Esses pequenos grupos, liderados por Tiago e Pedro, mesmo seguindo a mensagem de Cristo, continuavam se considerando membros do judaísmo e respeitavam os preceitos da Torá como, por exemplo, a circuncisão dos meninos. Entre eles não havia necessidade de textos escritos pois, conforme as palavras de seu Mestre, a parúsia era tida como iminente: “E já está próximo o fim de todas as coisas; portanto sede sóbrios e vigiai em oração” (1 Pedro 4:7). A Tradição nunca foi, nem de longe, uma biografia do Salvador, sendo a sua função apenas a de divulgar a “boa-nova”, a ressurreição de Cristo.

Dettaglio-al-tempo-di-Gesu

A partir do ano 40 d.C., tendo surgido a necessidade de gravar em forma escrita os atos e os ensinamentos do Nazareno, autores ignotos recolheram, num só corpus, material relativo à pregação de Jesus. Nesse corpus faltava, porém, tanto uma sucessão temporal dos eventos quanto uma construção narrativa, tornando assim impossível qualquer tentativa posterior de esboçar o desenvolvimento psicológico e religioso de Jesus. Esse novo texto, teorizado em ambientes acadêmicos alemães no início do século XIX e considerado apenas hipotético, foi chamado “Fonte Q”, inicial da palavra alemã Quelle que significa fonte. A sucessiva descoberta, em 1945, dos manuscritos de Nag Hammadi e do Evangelho de Tomé, deu consistência a hipótese da “Fonte Q”. Não são poucos os estudiosos atestando que a “Fonte Q” coincide, em seus traços essenciais, com o Evangelho dos Hebreus cuja existência foi confirmada pelos Padres da Igreja no II, III e IV século. Esses Padres, em seus escritos, reportam fragmentos do Evangelho dos Hebreus, mas com a finalidade de confutá-los pois, de seus versículos, emergia uma figura histórica de Jesus bastante diferente da imagem cada vez mais teológica e mitológica proposta pelos sucessivos Evangelhos canônicos.

Deixando de lato esse Evangelho, menosprezado e sucessivamente destruído pela Igreja, o primeiro texto escrito falando de Jesus é a Primeira epístola de Paulo aos Tessalonicenses, datada do ano 49-50 d.C. Nela aparece pela primeira vez a palavra evangelho (boa mensagem) assim como a testemunha escrita sobre a morte e ressurreição do Redentor e a esperança da ressurreição dos que acreditam em Cristo (1 Tessal. 5:14). O tema da ressurreição representa o núcleo central da pregação de Paulo de Tarso e será sucessivamente englobado nos Evangelhos canônicos. Podemos afirmar com segurança que, se Saulo não tivesse existido, não apenas não teríamos os Evangelhos, mas nem sequer o cristianismo no sentido de nova religião, mas apenas como uma ulterior ramificação do judaísmo ortodoxo. Ao mesmo tempo, temos que admitir a intuição realmente genial desse pregador que, para usar um termo moderno, utilizou técnicas de marketing (as epístolas) para divulgar o seu pensamento. Assim como Ray Kroc soube enxergar o imenso potencial do primeiro fast-food gerenciado pelos irmãos Mc Donalds, fazendo de um simples restaurante uma cadeia de dimensão planetária, Paulo transformou uma crença limitada a pequenos grupos de israelitas numa religião que em pouco tempo conquistou o mundo inteiro. Em sua empresa, Saulo foi facilitado pela essência da mensagem evangélica que pode ser resumida em poucos simples elementos fundamentais: amor, salvação e vida eterna, presentes também em outras religiões (por ex. no culto de Mitra), mas não em forma direta e eficaz como no cristianismo.

Mitra

Nem nas epístolas sucessivas aparecem detalhes significativos sobre a vida e a figura de Cristo: nenhum detalhe biográfico, nenhuma frase por ele proferida, nada sobre José, nada sobre Maria, da qual nem sequer diz o nome: “Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei” (Gálatas 4:4). Muito menos se fala em nascimento virginal, em Nazaré ou em Belém. Paulo limita-se a reafirmar a morte na cruz e a ressurreição de Cristo no terceiro dia, um conceito já presente há séculos em todos os principais mitos religiosos do Mediterrâneo (Átis, Osíris, Mitra, etc.). Saulo incorpora no nascente cristianismo outro elemento típico do paganismo: o de Eucaristia, um ritual ancestral conhecido e praticado tanto pelos Egípcios como pelos Gregos (mito de Dioniso). Ainda na Primeira epístola, Paulo de Tarso introduz o conceito filosófico grego de alma (1 Tessal. 5:23) abrindo, destarte, o caminho para a contaminação pagã do nascente cristianismo. Considere, o leitor, dois pontos fundamentais. Em primeiro lugar, jamais um israelita (e Jesus era um israelita) teria convidado os seus discípulos a comer a sua carne e beber o seu sangue pois aquele povo simplesmente abominava o sangue! Não apenas o Antigo Testamento condena esse comportamento em Gênese 9:4 e Levítico 17:14, mas até no Novo Testamento lemos que “Mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, da prostituição, do que é sufocado e do sangue.” (Atos 15:20). Quanto à expressão “alma imortal” jamais aparece em parte alguma da Bíblia nos originais hebraico e grego.

Vamos agora examinar os quatro Evangelhos tidos como autênticos pela Igreja cristã embora, na verdade, o número total de Evangelhos passe de 80. Os canônicos apresentam uma característica comum bastante importante: são todos escritos em grego e, portanto, a tese defendida pela Igreja segundo a qual os autores teriam sido os próprios Apóstolos, não pode ser sustentada. Os Apóstolos, além de serem analfabetos, não apenas desconheciam o grego, mas nem sequer falavam o hebraico, comunicando entre eles num dialeto chamado aramaico. Outro fator relevante desses quatro textos é a escassez de conhecimentos relativos à geografia, história e hábitos da antiga Palestina. Veja-se, por exemplo, o seguinte versículo: “Estes, pois, dirigiram-se a Felipe, que era de Betsaida da Galileia…” (João 12:21) mas Betsaida se encontra na Gaulanítide, não na Galiléia; e esse outro: “Ora João batizava também em Enom, junto a Salim,” (João 3:23), embora não exista nenhuma localidade com esse nome perto de Salim. Deduzimos, portanto, que os verdadeiros autores não apenas não testemunharam os fatos relatados, mas nem sequer eram hebreus (e muito menos Apóstolos). Outro elemento que reforça a tese de autores gregos são as prevenções de caráter antissemita introduzidas nos textos unicamente para inocentar os Romanos e jogar sobre os Judeus a culpa de ter assassinado o Filho de Deus. João, a respeito dos Israelitas, afirma o seguinte: “Vós tendes por pai ao diabo, e quereis satisfazer os desejos de vosso pai” (João 8:44). E, pior ainda, lemos que: “E, respondendo todo o povo, disse: O seu sangue [de Cristo] caia sobre nós e sobre nossos filhos” (Matheus 27:25). Esse versículo, falso, infamante e vergonhoso, formou a base jurídica, histórica e emocional de 2.000 anos de perseguições e extermínios perpetrados contra os Judeus.

EBREI
Judeus queimados vivos pelos cristãos na Idade Média

Como atestam muitos biblistas, inclusive o eminente Pe. John Meier, professor de Teologia na Universidade de Notre Dame, em South Bend (USA), o primeiro Evangelho reconhecido historicamente é o de Marcos (discípulo de Paulo de Tarso), escrito pouco depois do sítio de Jerusalém, no ano 70 d.C. Trata-se do testo mais curto e relativamente sintético mas, ao mesmo tempo, o mais verdadeiro e o mais próximo aos eventos que caracterizaram a vida de Jesus. Marcos inicia logo com a vida pública de Cristo que, no rio Jordão, é batisado por João Batista. Devido esse ritual ser típico dos Essênios, é provável que João tenha pertencido àquela comunidade e que o próprio Jesus tenha sido pelo menos um simpatizante. A propósito dos manuscritos essênios de Qumram, papa Bento XVI declarou que: “Estamos impressionados com a devota seriedade desses escritos: parece que João Batista, mas talvez também Jesus e a sua família, estivessem próximos a essa comunidade. De qualquer forma, os manuscritos de Qumram apresentam muitos pontos de contato com a pregação cristã. Não se pode excluir que João Batista tenha vivido por algum tempo nesta comunidade recebendo, em parte, a sua formação religiosa“. É também importante frisar que, na época em que Marcos escrevia, o primitivo cristianismo não foi considerado tal pelos seguidores de Jesus que continuaram se sentindo profundamente ligados à sua identidade hebraica.

No Evangelho de Marcos Jesus é crucificado e o texto termina com a presença de um jovem vestido de uma roupa branca que anuncia a ressurreição de Cristo (Marcos 16:1-8). Os versículos sucessivos, que narram das aparições, foram acrescentados sucessivamente, pois os mesmos não aparecem no Codex Vaticanus (325 d.C.) e no Codex Sinaiticus (370 d.C.), os mais antigos manuscritos existentes relativos ao N.T.  Marcos é o primeiro autor a falar de Maria, mas sem acenar à questão da virgindade. Nada se fala sobre a infância de Jesus, anjos e outras criaturas espirituais; a cidade de Nazaré é mencionada apenas uma vez. Quanto a Jesus, é apresentado como uma ser humano que não sofre a metamorfose semidivina comum aos outros Evangelhos. Muito pelo contrário, Jesus não é nem onipotente nem onisciente, tanto que não sabe quando chegará o dia do julgamento final: “Mas aquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos que estão no céu, nem o Filho, senão o Pai” (Marcos, 14:32). Esse evangelista nega até a bondade absoluta de Cristo citando as palavras do Mestre: “E Jesus lhe disse: Por que me chamas bom? Ninguém é bom senão um, que é Deus” (Marcos 10:18).

Cerca de 10 anos depois, em torno do 80 d.C., dois autores, Mateus e Lucas redigiram, independentemente um do outro, mais dois Evangelhos nos quais foram acrescentadas seções relativas à infância de Cristo e novos elementos sobre a ressurreição e as aparições. Entretanto, as respectivas narrações divergem em pontos importantes. Mateus insiste sobre o lado messiânico de Jesus enriquecendo o seu texto com o cumprimento de profecias bíblicas; também, enfatiza a ação social e política de Cristo em prol dos pobres relatando as palavras proferidas pelo Mestre no famoso Sermão da Montanha. Do ponto de vista teológico, Lucas é o mais fantasioso dos evangelistas pois, em seu texto, os anjos aparecem em continuação. O seu Jesus perde as conotações humanas de Marcos tornando-se um ser semidivino consciente dessa sua natureza. Embora a Igreja considere o Evangelho de Marcos um simples extrato daquele de Mateus, a partir do século XIX os filólogos concordam que Marcos foi umas das fontes utilizadas tanto por Mateus como por Lucas e, efetivamente, a análise textual mostra como 95,3% dos versículos de Marcos se encontrem em Mateus e 82,3% em Lucas. Outras fontes usadas por esses dois evangelistas são, muito provavelmente, o Evangelho dos Hebreus e o de Tomé.

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Marcos e João

O sucessivo Evangelho de João, redigido já no começo do II século, apresenta um cristianismo totalmente diferente daquele dos sinópticos pois se baseia sobre um dos conceitos essenciais da filosofia grega, o de Logos. A sua finalidade é provar a divindade do Cristo e o público-alvo não é mais constituído por pessoas simples e humildes, mas por intelectuais de cultura grega; portanto, a linguagem popular grega (koiné) dos sinópticos é abandonada e substituída por outra mais alta. O desprezo em relação aos ricos e o enaltecimento da pobreza desaparecem totalmente. Por outro lado, Jesus é representado como sendo uma entidade completamente divina, preexistente ao mundo e despida de qualquer fraqueza humana tanto que, na hora da morte, Jesus não exclama mais “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” (Marcos 15:34 e Mateus 27:46), mas profere a frase heroica e sobre-humana “Está consumado” (João 19:30).

Infelizmente não existem cópias originais desses quatro Evangelhos, a não ser os dois Codex citados antes, e já a partir do segundo século os textos começaram a ser alterados. O próprio Orígenes, um dos Padres da Igreja, atesta esse hábito de seus colegas, por ele justamente apelidados de “emendadores”. Tal prática prosseguiu com outros eminentes Padres, como Eusébio, Crisóstomo, Agostinho, Jerônimo, etc. e foi confirmada até pelo papa João Paulo II.

Quanto aos Atos, eles foram escritos com a intenção de demonstrar a inexistência de conflitos entre, de um lado o cristianismo praticado pela Igreja de Jerusalém, liderada por Tiago e portadora de uma mensagem messiânica de natureza ascética e, do outro, as igrejas helenísticas, fundadas por Paulo e defensoras do universalismo da mensagem crística. Foi principalmente o conceito de “Reino de Deus” que gerou uma fratura entre as duas linhas do cristianismo. Para os Apóstolos de Jerusalém Jesus havia sim pregado o advento de um reino de origem divina, mas terreno, imediato e destinado à emancipação do povo de Israel (Mateus 10:5-6). Paulo, reinterpretando as Escrituras, afirmava tratar-se de um reino ultraterreno e universal, totalmente desligado do conceito tradicional de messianismo político/religioso. O contraste entre Paulo e Tiago cresceu dramaticamente durante os anos e culminou com a tentativa de linchamento de Paulo no templo (Atos 21:30-33). Os Atos, redigidos por um discípulo de Paulo, minimizam esse gravíssimo contraste e justificam a atitude do “Apóstolo dos gentios” alegando que ele, graças às suas visões celestiais, teria conhecido Cristo melhor que os legítimos Apóstolos.

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As viagens de Paulo de Tarso

O esquema seguinte mostra a sucessão cronológica dos textos do N.T. segundo a doutrina tradicional da Igreja (à esquerda) e a sucessão cronológica segundo os resultado de estudos históricos e filológicos (à direita):

1) Evangelho de Mateus                                                1) Epístolas de Paulo
2) Evangelho de Marcos                                                2) Evangelho de Marcos
3) Evangelho de Lucas                                                   3) Evangelho de Mateus
4) Evangelho de João                                                      4) Evangelho de Lucas
5) Atos                                                                                  5) Atos
6) Epístolas de Paulo                                                     6) Epístolas dos Apóstolos
7) Epístolas dos Apóstolos                                           7) Evangelho de João
8) Apocalipse                                                                     8) Apocalipse

Apesar dos livros serem os mesmos, a sequência é importante, pois mostra como a Igreja tentou, com sucesso, de disfarçar a figura messiânica e nacionalista de Cristo, apresentando-o como um ser divino consubstancial a Deus. No entanto, uma leitura atenta dos sinóticos revela a dissimulação e qualquer pessoa de mente aberta pode facilmente se dar conta do projeto político de Jesus. Por exemplo, João narra que “E achou Jesus um jumentinho, e assentou-se sobre ele, como está escrito: -Não temas, ó filha se Sião [Jerusalém]; eis que o teu Rei vem assentado sobre o filho de uma jumenta” (João 12: 14-15). Jesus não se assenta no jumento apenas para descansar as pernas, mas, sendo ele rabino e conhecendo perfeitamente as Escrituras, quer que se cumpra a profecia que diz: “Alegrate demasiado, ó cidade filha de Sião; eis que o teu rei vem a ti; ele é justo e traz a salvação; ele é humilde e vem montado sobre um burrico, um potro sagrado, cria de jumenta” (Zacarias 9:9). Trata-se de um gesto cujo significado não pode ser equivocado: Jesus vem como Rei e o povo o acolhe “Dizendo: bendito o Rei que vem em nome do Senhor;” (Lucas 19:38). Jesus não apenas não nega a sua missão messiânica mas, aos fariseus que lhe pedem para repreender os seus discípulos, ele responde dizendo que “Digo-vós que, se estes se calarem, as próprias pedras clamarão” (Lucas 19:40).

Outro fato que confirma a intenção de Cristo de tornar-se rei é representado pela unção com óleo de nardo, cerimônia à qual se submetiam os antigos reis de Israel (Ungido = Messias). Lemos que: “E estando ele em Betânia … veio uma mulher, que trazia um vaso de alabastro, com unguento de nardo puro, de muito preço, e quebrando o vaso, lho derramou sobre a cabeça” (Marcos 14:3). Também Mateus (26:6-13) confirma o episódio que, em forma um pouco diferente, é relatado igualmente em Lucas (7:37-39) que fala apenas numa “pecadora” sem dar nome aos bois. A Igreja justifica esses dois eventos, que na verdade se reduzem a um só, como sendo apenas manifestações de devoção. Na verdade, foi uma cerimônia de unção realizada no intento de oficializar a dignidade messiânica de Jesus, como descendente direto de Davi e futuro rei dos Judeus. Observamos, inclusive, que as genealogias de Mateus e de Lucas, além de discordar, apontam Jesus como descendente de Davi, mas esquecem o fator mais importante, ou seja, que Jesus, sendo filho do Espírito Santo e não de José, nada tinha a ver com a estirpe do segundo rei de Israel.

Os antigos Romanos costumavam dizer que “Audentes fortuna iuvat” e, objetivamente, a sorte favoreceu Paulo de Tarso muito além de seus próprios planos. Antes da “visão de Damasco” (ausente em suas epístolas) foi um ferrenho perseguidor dos primeiros cristãos; em seguida soube desfrutar habilidosamente de sua dupla nacionalidade apresentando-se aos Hebreus como sendo um fariseu rigoroso enquanto, para ganhar os gentios, não hesitou a renegar a lei de Moisés. Alegando ter conhecido pessoalmente Cristo por meio de êxtases sobrenaturais (Saulo tinha frequentes ataques de epilepsia) fundou várias comunidades na Grécia que, aos poucos, acabaram se distanciando da legítima Igreja de Jerusalém. Quando, no ano 70 d.C. as comunidades cristãs da Palestina foram varridas pelo exército de Vespasiano, as de Paulo, verdadeiro “cidadão do mundo”, prosperaram gerando as bases do novo movimento cristão totalmente livre das prescrições da Lei judaica. Objetivando conquistar à fé os vários povos pagãos do Império Romano, a doutrina teve que eliminar ainda mais qualquer referência ao passado nacionalista e messiânico de Jesus, apresentando-o como sendo um manso Redentor universal, filho de Deus e Deus ele mesmo.

4. Council of Nicea

A nova figura mística de Cristo foi formalizada no Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) e os textos evangélicos divididos em duas categorias: os canônicos e os apócrifos [falsos]. Uns, como o Evangelho dos Hebreus e o similar Evangelho dos Ebionitas foram destruídos, enquanto que os demais foram reeditados para que se conformassem à doutrina estabelecida pelo Concílio. Os textos originais sofreram inúmeras censuras e interpolações como, por exemplo, o “final de Marcos” que não aparece nos antigos códigos.

Temerosa que as falsificações fossem descobertas, durante mais de oito séculos seguidos a Igreja proibiu aos fiéis a leitura e até a simples posse das Escrituras. Quem desobedecia era encaminhado ao tribunal da Inquisição. A atividade falsificadora da Igreja católica continua até hoje graças ao fato que poucas pessoas entendem o grego antigo e um número ainda menor tem interesse na leitura dos Evangelhos originais. Seguem, entre muitos possíveis, dois exemplos; outros podem ser encontrados em meus artigos publicados no livro “Viagem ao centro do Cristiansmo“. Os versículos transcritos nos dois parágrafo seguintes são do Novo Testamento dos Gideões Internacionais (evangélicos) que mostram ter uma atitude mais honesta que seu irmãos católicos!

A Família de Jesus

Objetivando construir uma figura extraterrena de Cristo, a Igreja sempre negou que ele tivesse irmãos carnais alegando a desculpa que na língua hebraica as palavras irmão e primo são usadas de forma ambígua. Esquece, porém, que em grego as duas palavras usam termos diferentes: “adelphoi” significa irmão carnal enquanto “anepsioi” significa primo. Como está escrito: “οὐχ οὗτός ἐστιν ὁ τοῦ τέκτονος υἱός; οὐχ ἡ μήτηρ αὐτοῦ λέγεται Μαριὰμ καὶ οἱ ἀδελφοὶ αὐτοῦ Ἰάκωβος καὶ Ἰωσὴφ καὶ Σίμων καὶ Ἰούδας?” que significa “Não é este o filho do carpinteiro? E no se chama sua mãe Maria, e seus irmãos [carnais] Tiago, e José, e Simão e Judas?” (Mateus 13:55) fica comprovado que Cristo tinha irmãos carnais e que Maria não era virgem.

A Paixão de Cristo

Ainda hoje a Igreja católica insiste na afirmação que Jesus foi preso por um “destacamento de soldados” aparentemente judeus. Entretanto, no texto original grego lemos que: “ὁ οὖν Ἰούδας λαβὼν τὴν σπεῖραν…” que quer dizer: “Tendo pois Judas recebido a coorte…” (João 18:3). Não ha dúvida que se trate de uma coorte romana pois, mais adiante, lemos que: “Ἡ οὖν σπεῖρα καὶ ὁ χιλίαρχος…” cuja tradução correta é a seguinte: “Então a coorte, e o tribuno,…” (João 18:12). A palavra χιλίαρχος (kiliarchos) significa literalmente comandante de um grupo de mil soldados e a primeira coorte de cada legião era composta por exatamente mil soldados. Como podemos acreditar que uma inteira coorte, liderada por um oficial superior, tivesse sido enviada para prender apenas uma pessoa que nada fazia se não rezar pacificamente?

jesus

O teólogo evangélico austríaco Carl Samuel Schneider (1801-1882) disse que as falsificações sofridas pelos Evangelhos começaram muito cedo e ainda continuam. A legitimidade do embuste e da mentira, considerados como instrumentos de salvação, foi defendida por Paulo de Tarso: “Mas, se pela minha mentira abundou mais a verdade...” (Romanos 3:7) e “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regojizo, e me regojizarei ainda.” (Filipenses 1:18). Mais tarde, muitos Doutores da Igreja como João Crisóstomo e Orígenes, confirmaram a legalidade da mentira. Então, com essas premissas e tendo na devida conta que todos os textos atualmente conhecidos são transcrições de transcrições de transcrições que, durante os séculos sofreram ulteriores modificações para que se adaptassem às necessidades catequísticas e teológica da Igreja, como se pode afirmar que Jesus realmente disse ou fez o que lemos nos modernos Evangelhos? Não seria melhor enfrentar com espírito aberto as críticas que boa parte dos filólogos dirigem à tradição eclesial fundada sobre censuras, omissões, interpolações e traduções erradas? Afinal, como disse Cícero: “Dubitando ad veritatem pervenimus”, ou seja, “É duvidando que alcançamos a verdade!”

Termino citando as palavras de padre Arturo Sosa, atual Superior-geral da Companhia de Jesus que, durante uma entrevista, declarou o seguinte: “Antes de tudo, deveríamos começar uma bela reflexão sobre o que Jesus realmente disse… naquela época, ninguém tinha um gravador para gravar as palavras. […] Então é verdade que ninguém pode mudar a palavra de Jesus, mas precisamos saber qual ela foi!”

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