POR QUE STALIN VENCEU A GUERRA?

Durante a primeira parte da Segunda Guerra Mundial as tropas da Alemanha avançaram vitoriosas em quase toda a Europa continental conquistando, ou atraindo em sua órbita, várias outras nações. Até o verão de 1941 o único inimigo que ainda resistia ao poder do Eixo era a Grã Bretanha, que recebia matérias primas de seu imenso império e ajuda militar dos Estados Unidos, nação ainda formalmente neutral.

Em 1940, após a derrota da França, da Holanda e da Bélgica, Hitler, visando dobrar esse derradeiro inimigo, ordenou que fosse dado início à “Operação Leão Marinho” para a conquista da Ilha. Levando em conta a superioridade da marinha britânica, o sucesso dessa operação dependia do domínio do ar, mas a corajosa defesa dos céus da Ilha realizada pela numericamente inferior RAF (Royal Air Force) impediu o decisivo domínio aéreo da Luftwaffe. Devido os Alemães acreditarem que a Grã-Bretanha pediria a paz após o esmagamento da URSS, os estrategas nazistas decidiram planejar a invasão da Rússia que teve início aos 22 de junho de 1941.

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Spitfire da RAF

 

Esse ensaio não visa narrar a história dessa fase do conflito mundial, apenas irá explicar por quais motivos a União Soviética conseguiu alcançar a vitória final.

OS RECURSOS – Durante toda a guerra, a produção de ferro e carvão foi sempre muito superior na Alemanha. Todavia a Alemanha carecia de produtos energéticos, de minérios estratégicos (por exemplo o tungstênio) e de recursos humanos: 80 milhões de Alemães contra 175 milhões de Russos. Além disso Stalin podia contar com o trabalho forçado de escravos nos GULAG da Sibéria, onde dezenas de milhões de homens e mulheres inocentes foram explorados até à morte.

gulag
GULAGs na União Soviética

 

A INDÚSTRIA – Quem pensa que a URSS fosse uma nação basicamente agrícola se engana. Já nas vésperas da Primeira Guerra Mundial a Rússia era a quarta potência industrial do planeta e os governos comunistas reforçaram ainda mais a produção. Quando os nazistas desencadearam a invasão, Stalin teve a idéia genial de ordenar que as fábricas fossem desmontadas e transferidas para o leste, além dos Montes Urais, longe do front e das incursões aéreas. As tabelas seguintes comparam a produção de armamentos dos dois lados de 1940 até 1945:

TANQUES

ANO ALEMANHA URSS
1940 1.643 2.800
1941 3.790 6.600
1942 6.180 24.000
1943 12.063 24.000
1944 19.002 29.000
1945 4.400 15.400
TOTAL 47.078 101.800
T34
Um T-34 russo, o carro de combate mais importante da Armada Vermelha

 

Apesar das graves perdas sofridas pelos Soviéticos (em total 61.900 veículos blindados) a disponibilidade de tanques ficou sempre favorável aos Russos, sem contar que a Alemanha combatia na África, na Itália e, a partir de 6 de junho de 1944, também na França. No último ano de guerra para cada tanque alemão haviam dez russos cuja qualidade era comparável, se não superior, aos da Wehrmacht.

 

AVIÕES

 ANO ALEMANHA URSS
1940 10.800 10.500
1941 11.800 15.700
1942 15.600 25.400
1943 25.500 34.800
1944 39.800 40.200
1945 7.500 20.000
TOTAL 111.000 146.600
sturmovik
 O Sturmovik foi uma aeronave de ataque ao solo

 

Essa segunda tabela mostra quão poderosa fosse a aviação russa cujas aeronaves, embora de qualidade inferior às da Alemanha, conseguiram enfim dominar os céus da Rússia. A potência soviética se evidencia ainda mais se formos considerar a produção de canhões (140.000 produzidos pela Alemanha contra 379.000 produzidos pela URSS nos anos 1942-1944), dos morteiros (73.500 contra 403.300) e das metralhadoras (674.000 contra 1.477.000). Somente na produção de veículos a Alemanha ultrapassou a Rússia.

Diante dessa realidade, é evidente que, para derrotar um gigante industrial como a URSS, ia ser necessário vencer o inimigo nos primeiros meses da campanha, denominada em código “Operação Barbarossa”. Se a Wehrmacht tivesse conseguido conquistar Moscou antes do inverno, provavelmente a Alemanha teria ganhado a guerra, assim como havia ocorrido em 1940 quando a França, mesmo dispondo de forças armadas mais poderosas, sucumbiu diante da blitzkrieg hitleriana. A velocidade era a chave do sucesso. Inclusive, os grandes Expurgos dos anos 1938–1940 haviam literalmente eliminado 50% dos oficiais da Armada Vermelha (no fim de 1940 nem um só comandante de regimento havia completado o normal curso de estudos junto à academia militar) deixando-a enfraquecida ao ponto de apanhar até do minúsculo exército finlandês. Em comparação, o exército hitleriano era muito mais eficiente e perfeitamente organizado.

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A franco-atiradora Roza Shanina eliminou 12 atiradores inimigos

OS DA ALEMANHA – Quando Hitler decidiu agredir a União Soviética, com a qual havia assinado um tratado de não agressão em 1939, subestimou gravemente as forças do inimigo e não utilizou todas as tropas a sua disposição. No ataque foram lançadas 153 divisões contra as 176 russas (estimadas) mas que, na verdade, eram 300. Isso enquanto 38 divisões alemãs permaneciam ociosas na França que, por enquanto, não corria o perigo de sofrer ataques por parte inglesa. Como resultado o exército alemão não conseguiu conquistar a capital inimiga antes do gélido inverno russo, com as consequências que todos conhecem.

Outro erro decorreu da visão louca do Fuhrer segundo o qual todos os povos do leste europeu, não sendo arianos, deviam ser exterminados ou transformados em escravos do Terceiro Reich. Destarte Hitler frustrou as esperanças daqueles povos que, como os Ucranianos, teriam se aliado à Alemanha para se livrar da tirania comunista. Até os próprios Russos, que haviam reagido com apatia e resignação à notícia da invasão, mudaram radicalmente a sua atitude quando chegaram as primeiras notícias das atrocidades cometidas pelas tropas nazistas. Apenas uma pequena parte de soldados russos prisioneiros ou desertores foram “reciclados” para lutar contra Stalin.

 

O ERRO DO JAPÃO – Embora aliado do Eixo, o governo imperial japonês, mais interessado a entrar em guerra contra os Estados Unidos, não coordenou a sua estratégia com a Alemanha, chegando ao ponto de assinar, em abril de 1941, um tratado de não agressão com a URSS. Como resultado, cerca de 60 divisões soviéticas foram transferidas das fronteiras orientais para a front contribuindo validamente à defesa de Moscou e ao início de uma grande contraofensiva no final de 1941. Com isso a fase da blitzkrieg havia terminado e, nos anos sucessivos, Stalin utilizou a superioridade demográfica e industrial da Rússia para esmagar definitivamente o inimigo nazista.

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O embaixador japonês assina o tratado de não agressão

 

O ERRO DA ITÁLIA – No final de outubro de 1940 Mussolini, no intento de reafirmar a sua autonomia dentro do Eixo, atacou a Grécia partindo de suas bases na Albânia. A campanha foi desastrosa e as tropas gregas não apenas resistiram aos Italianos, mas conseguiram rechaçá-los de forma tão surpreendente que Hitler foi obrigado a socorrer o aliado em dificuldade. Em poucas semanas tanto a Jugoslávia que a Grécia foram conquistadas, mas isso acarretou um grave atraso na Operação Barbarossa que devia iniciar no dia 15 de maio. Vários historiadores afirmam que essa demora comprometeu o sucesso da invasão da URSS, pois as tropas nazistas foram detidas pela lama e depois pelo gelo sem conseguir chegar a Moscou.

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Tropas nazistas detidas pela lama

 

A AJUDA DOS ALIADOS – Além da falta de oficiais experientes, o verdadeiro calcanhar de Aquiles da Armada Vermelha era a escassez de meios de transporte num território imenso onde as fábricas de armamentos ficavam muito distantes dos campos de batalha. Sabe-se que, nas guerras modernas, a logística tem uma importância fundamental e de nada adianta possuir mais recursos e soldados se carecem os meios para deslocá-los rapidamente nos pontos onde mais se apresente a necessidade. Nas primeiras semanas de guerra, os Alemães destruíram grandes quantidades de veículos e de trens russos, pondo os oponentes em sérias dificuldades.

É oportuno salientar que, já em 1938, o FBI havia informado o presidente Roosevelt sobre a existência dos gulag soviéticos e que a Rússia, devido o seu imenso potencial, ia se tornar, para os Estados Unidos, mais perigosa que a Alemanha nazista. Mesmo assim, com uma rapidez surpreendente, o presidente americano Franklin D. Roosevelt providenciou o envio de tudo o que o Estado-Maior de Stalin necessitasse, às vezes priorizando os Russos em detrimento dos Aliados.

De 1941 a 1945 os Anglo-americanos forneceram à União Soviética 375.883 caminhões, 51.503 jipes, 1.981 locomotivas e 11.150 vagões motorizando, destarte, um exército acostumado a se delocar a pé. Além disso foram enviados 12.753 tanques e 22.206 aeronaves que chegaram bem nos momentos mais críticos da blitzkrieg ajudando não pouco a Rússia a superar a crise inicial. Outro item importantíssimo foram as 2.670.371 toneladas de gasolina e lubrificantes. É importante lembrar que, apesar da grande quantidade de petróleo extraído na URSS, devido às obsoletas refinarias russas, a qualidade da gasolina era péssima, tanto que os veículos militares ficavam frequentemente em pane. Em particular, a aviação russa disponha de pouca gasolina de alta octanagem; o problema foi resolvido usando principalmente o carburante enviado pelos Aliados.

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Stalin e Roosevelt

Nem podemos esquecer as 478.116 toneladas de carne enlatada, açúcar, farinha e sal suficientes para alimentar um exército de 12 milhões de homens durante toda a duração do conflito. Sem falar nos medicamentos, calçados, pneus, motores diesel, níquel que jamais foram cerceados. Em definitiva, a produção industrial soviética pôde se concentrar, quase exclusivamente, sobre os armamentos mantendo, assim, a superioridade estratégica até o fim do conflito mundial.

 

Entre 1941 e 1945 morreram 2.288.000 soldados alemães e 14.700.000 soviéticos, além de 20.000.000 de civis russos. A maioria dos prisioneiros de ambos os lados pereceram nos campos de concentração onde foram obrigados a trabalhar duramente. Todavia, enquanto os ex-soldados alemães foram recebidos em Pátria como heróis, 1.368.000 ex-combatentes russos foram considerados traídores e todos foram condenados a dez anos de gulag por ordem de Stalin (ordem n° 270 de 16/08/1941). Essa ordem desumana incluía as famílias dos oficiais, enquanto os familiares dos soldados deviam “ficar sem a assistência do estado”, ou seja, sem alimentos! O número surpreendentemente alto de baixas entre os Russos deve-se, em boa parte, ao desprezo de Stalin pela vida de seus compatriotas. Ainda no início de 1941, durante uma importante reunião, o chefe da aviação militar russa Rycagov teve a ousadia de dizer que as aeronaves soviéticas não passavam de “caixões voadores”. Naquela mesma noite Rycagov, junto com seus antecessores, os generais Loktionov e Smuskevic, e outros comandantes da aviação e da artilharia foram presos pela NKDV, a polícia política, e fuzilados.

 

stalin

 

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