O INFINITO ACABA DE COMPLETAR DUZENTOS ANOS

No dia 28 de maio desse ano os habitante da cidade italiana de Fiumicino, sede do grande aeroporto intercontinental de Roma, acordaram com uma bela surpresa: uns desconhecidos haviam afixo aos muros de numerosos prédios, às árvores e aos postes das ruas centenas de folhas brancas contendo os mais belos sonetos de Giacomo Leopardi, William Shakespeare, Sandro Penna e Giuseppe Ungaretti. Além de apresentar lindos poemas, as folhas serviram para cobrir escritas agressivas e suásticas deixadas por grupos neonazistas.

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Contemporaneamente, em numerosos estabelecimentos de ensino espalhados pela península italiana, os alunos realizavam readings de textos poéticos de Giacomo Leopardi (1798-1837), considerado uma das figuras mais importantes da literatura mundial e um dos principais expoentes do Romantismo literário europeu. Devido à profundidade de sua reflexão sobre a existência e sobre a condição humana -de inspiração pessimista e materialista– Leopardi foi considerado um filósofo de alto quilate.

A extraordinária qualidade lírica de sua poesia fez dele um protagonista central no panorama literário e cultural europeu e internacional, com repercussões que foram muito além de sua época. Sabemos que esse poeta foi vítima de um problema cerebrospinal, de asma e de cegueira progressiva de um olho. Essas suas deficiências físicas fizeram com que se recatasse da companhia feminina e, além das dores físicas, Giacomo transcorreu boa parte da sua breve existência na solidão, no estudo e na meditação.

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O debate sobre o trabalho de Leopardi, especialmente em relação ao pensamento existencialista entre os anos ‘30 e ‘50 do século passado, levou os exegetas a aprofundar a análise filosófica do conteúdo e do significado de seus textos. A reflexão filosófica e o impulso poético mostram que Leopardi, assim como Schopenhauer, Kierkegaard, Nietzsche e, mais tarde, Kafka, pode ser visto como existencialista ou, pelo menos, como precursor do existencialismo.

O ponto focal do pensamento de Leopardi é a infelicidade do homem que, segundo o poeta, é causada pela contínua aspiração a um prazer infinito impossível de ser alcançado. Consequentemente, para Leopardi, nenhum dos prazeres limitados desfrutados pelo ser humano pode vir a satisfazer a aspiração ao prazer infinito. Dessa tensão não realizada surge uma sensação de insatisfação e infelicidade perpétua que leva a um sentido de nulidade de todas as coisas (num sentido puramente material). O homem é, portanto, necessariamente infeliz, mas a culpa é da Natureza que, visando salvaguardar a espécie em detrimento do síngulo indivíduo, deixa que esse último possa ser sacrificado. Destarte o mal faz parte da própria natureza sendo, o homem, vítima inocente de um mecanismo cruel que não pode controlar. Essa atitude é denominada de pessimismo cósmico e, para o poeta, a figura ideal não é mais o herói antigo, mas o sábio filósofo.

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Mas, voltano à crônica, por que essa nobre iniciativa foi tomada exatamente nesse ano de 2019?

A resposta é que nesse ano cai o bicentenário da redação de um de seus mais famosos poemas, provavelmente o mais belo de todos, intitulado “L’Infinito” (O Infinito). Sabe-se que Giacomo Leopardi costumava subir ao longo da estrada de Santo Stefano, ao lado de seu jardim, até o monte Tabor. Alcançado o topo, ele costumava se abandonar ao prazer reconfortante das verdades imaginárias. Assim, numa tarde de 1819, aos vinte e um anos, o jovem poeta teve a sensação que a visão quase ilimitada daquele maravilhoso panorama natural se expandisse ainda mais. Diante da natureza deslumbrante a ideia de infinito brotou do olho de seu coração que foi capaz de enxergar além da cerca que excluía a vista. Foi um magnífico momento de êxtase gerado pela contradição entre a ideia do conhecimento infinito e empírico do tempo e do espaço, e a absoluta insignificância do ser humano em relação às outras coisas existentes.

Eis o texto original em italiano e, a seguir, uma minha tradução.

 

L’INFINITO

Sempre caro mi fu quest’ermo colle,

e questa siepe, che da tanta parte

dell’ultimo orizzonte il guardo esclude.

Ma sedendo e mirando, interminati

spazi di là da quella, e sovrumani

silenzi, e profondissima quiete

io nel pensier mi fingo; ove per poco

il cor non si spaura. E come il vento

odo stormir tra queste piante, io quello

infinito silenzio a questa voce

vo comparando: e mi sovvien l’eterno,

e le morte stagioni, e la presente

e viva, e il suon di lei. Così tra questa

immensità s’annega il pensier mio:

e il naufragar m’è dolce in questo mare.

 

O INFINITO

Sempre cara mi foi essa erma colina

e esta sebe, que de tantos lados

do último horizonte o olhar impede.

Mas sentando e mirando, intermináveis

espaços além dela, e sobre-humanos

silêncios, e profundíssima quiete,

no pensamento me finjo, onde por pouco

o coração não se apavora. E como do vento

ouço o agitar entre essas plantas, eu àquele

infinito silêncio a esta voz

vou comparando: e me sobrevém o eterno,

e as mortas estações, e a presente

e viva, e o som da mesma. Assim entre essa

imensidade afoga o pensamento meu:

e o naufragar me é doce nesse mar.

 

 

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