TERROR VERMELHO E TERROR BRANCO NA GUERRA CIVIL ESPANHOLA

O famoso escritor Saint-Exupéry, autor de “O Pequeno Príncipe”, disse que “uma guerra civil não é uma guerra, mas uma doença” e, com efeito, raras vezes na História viu-se tanta violência doentia contra pessoas cuja única culpa era a de ter um pensamento político ou religioso diferente. No contexto ainda vivo da Revolução de Outubro (1917) que instaurou o poder dos sovietes na Rússia, o processo de polarização mundial entre “vermelhos” e “brancos” atingiu níveis inimagináveis durante a Guerra Civil Espanhola (1936-1939) quando os extremistas de ambos os lados impuseram a sua visão maniqueista divulgando imagens aterrorizantes dos adversários e apresentando-os como Anticristos sedentos de sangue.

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Durante os anos do conflito a palavra “piedade” foi esquecida. Os inimigos acabaram sendo despidos de suas características de seres humanos e, portanto, tratados como traidores hediondos. É por isso que as atrocidades cometidas durante aquela guerra civil ficaram gravadas na memória coletiva não apenas do povo espanhol, mas tiveram profundas repercussões na opinião pública do mundo inteiro.

Nesse artigo não serão apresentados os eventos bélicos em si, mas apenas as consequências do abismo de ódio que criou-se entre o lado nacionalista e aquele republicano. Entretanto, antes de entrar no vivo da matéria, é oportuno mostrar ao leitor uma breve síntese dos eventos que levaram o País à catástrofe final.

 

OS ANTECEDENTES

Após uma fase política bastante conturbada, caracterizada por assassinatos políticos, tentativas revolucionárias mal sucedidas e duras repressões militares, em fevereiro de 1936 foram realizadas eleições políticas que viram o embate entre a direita (CEDA) liderada pelo católico antiliberal José Maria Gil Robles e a Frente Popular chefiada pelo republicano liberal Manuel Azaña. O pleito, realizado num clima tenso, mas sem ameaçãs ou atos de violência, viu a coalizão de centro-esquerda ganhar com pouco mais de 150.000 votos (cerca 2%). No entanto a Lei eleitoral -que favorecia as maiorias- deu à Frente Popular a maioria das cadeiras no parlamento.

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Apesar da estrutura basicamente moderada do novo governo, a direita reagiu como se os bolcheviques tivessem se apossado do poder, mas a verdade é que tratou-se de um governo centrista e legalitário tanto que, nas primeiras semanas apos o levante dos militares, o executivo recusou-se a distribuir armas aos sindicatos, fato, esse, que prejudicou a possibilidade de esmagar rapidamente o golpe. A Igreja alertou que os inimigos do catolicismo “sob a influência e a direção da conspiração mundial judaico-maçônica estão desencadeando um ataque mortífero contra nós” e o cardeal Gomá declarou que “judeus e maçons envenenavam a alma da nação com suas doutrinas absurdas”. Destarte, as palavras proferidas pelas hierarquias católicas deram legitimidade à cruzada contra o governo republicano eleito democraticamente.

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Embora uns apontem o homicídio do líder direitista José Calvos Sotelo (13 de julho) como o gatilho que deu início à rebelião dos militares, na verdade já nas primeiras semanas após as eleições, ou seja em março, uns líderes reacionários, entre eles Fal Conde -chefe do movimento ultraconservador carlista– começaram a planejar uma insurreição em cooperação com a União Militar Espanhola (associação segreda de direita composta por oficiais das Forças Armadas), com os monarquistas e com os falangistas. No dia 25 de maio o general golpista Emilio Mola divulgou entre os colegas a “Instrucción reservada n. 1” contendo indicações detalhadas sobre como o golpe devia ser realizado. Enfim, às 5 horas do dia 18 de julho as tropas de elite que estavam no Marroco se levantaram e, logo em seguida, invadiram o continente mediante uma ponte aérea realizada com aviões enviados pelos governos da Alemanha nazista e da Itália fascista.

O TERROR VERMELHO

Nas regiões controladas pelos republicanos a fúria homicida dos mais fanáticos foi canalizada principalmente contra os membros do clero católico. O intenso anticlericalismo espanhol, nascido no século XIX, foi consequência da violência milenar exercida pela Inquisição a partir da Idade das Trevas e, em seguida, do apoio dado pelo clero às classes dominantes e conservadoras. A matança de religiosos concentrou-se basicamente durante os primeiros meses de guerra (verão de 1936), durante os quais foram executados 13 bispos, 4.148 sacerdotes, 2.365 monges e 283 freiras. Naturalmente a Igreja espanhola reagiu a esse massacre divulgando no mundo uma imagem demoníaca dos republicanos; todavia nem sequer protestou quando os nacionalistas fuzilaram 16 padres no País Basco e, mais tarde, 20 ministros protestantes.

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A imprensa mundial insistiu com veemência sobre o estupro de freiras, mas os próprios nacionalistas, num relato publicado em 1946, conseguiram confirmar apenas um único caso. Mesmo assim, foi comprovado que uns religiosos foram submetidos a torturas antes de serem mortos; diversos padres foram queimados vivos dentro de suas igrejas e outros evirados. Cadáveres de religiosos foram retirados de seus sepulcros e profanados por elementos anticlericais. Sabe-se de um miliciano que dançou com o esqueleto de uma freira. Por outro lado, quando a guerra terminou, o clero voltou a ter um papel de destaque e de controle na vida dos espanhóis. Os sacerdotes anotavam os nomes daqueles que não iam regularmente à missa e quem entrava nessas listas corria o sérios risco de ser, no mínimo, encarcerado e processado, pois o ateismo passou a ser considerado um crime.

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Outro alvo do ódio das massas enfurecidas foram os oficiais, os fazendeiros e seus filhos, os empresários, os políticos de direita, os profissionais e os comerciantes. Quem era tido como “explorador do povo” ou havia mantido uma atitude arrogante com os mais pobres teve poucas chances de sobreviver, mas houve clemência para aqueles que haviam mostrado respeito para com seus funcionários. Os partidos de esquerda e os sindicatos constituíram especiais comissões de inquérito (denominadas “checas”) encarregadas de trabalhar como tribunais populares onde milhares de direitistas foram julgados e fuzilados. De regra os processos eram extremamente sumários e muitas vezes, visando acelerar ou justificar as condenações, foram impressas falsas carteirinhas da Falange.

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Particularmente repugnantes foram os massacres dos “fascistas” lançados no poço de uma mina a Ciudad Real ou os de Santander, precipitados dos arrecifes de Cabo Mayor, ou dos 512 filhos de famílias burguesas na cidade andalusa de Ronda jogados de um penhasco. A famigerada Brigada del Almanacer tinha o costume de justiçar qualquer pessoa que tivesse sido denunciada, mesmo que em forma anônima, sem provas e após um julgamento sumário. Vestir em modo elegante ou até usar a gravata podia levantar suspeitas e por isso a população das zonas republicanas passou a utilizar roupas mais simples e informais.

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Em Madrid, mais de 8.500 pessoas procuraram abrigo nas embaixadas até que uma “checa” teve a ideia de abrir uma falsa embaixada e suprimir todos aqueles que nela haviam se refugiado. Oficiais rebeldes e políticos encarcerados foram fuzilados como represalha pelo massacre de 1.200 republicanos em Badajoz por um total de 8.815 vítimas. Os massacres se estenderam à Catalunha (8.352 assassinatos) e a outras cidades: 400 a Toledo, 600 a Ciudad Real, 1.100 a Málaga, 2.000 na Nova Castilha, 4.715 em Alicante a Valência. No outono de 1936 a vingança dos milicianos ceifou a vida de mais de 2.000 presos políticos, entre os quais os intelectuais nacionalistas Ramiro de Maeztu e Ramiro Ledesma. Em tudo, o terror vermelho ceifou 38.000 pessoas na área controlada pela república.

 

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No entanto, é oportuno lembrar que até nos momentos de maior furor homicida, tanto o governo como os líderes das organizações sindicais fizeram o possível para salvar vidas e frear a raiva popular. Por exemplo, a Madrid o próprio presidente Azaña conseguiu salvar os monges do Escorial enquanto outros ministros fizeram o que puderam para aplacar os extremistas. Até Dolores Ibárruri, a famosa dirigente comunista mais conhecida como Passionária, interveio para poupar as vidas de uns militantes de direita e de não poucas freiras. Quando o massacre terminou, a grande maioria da população sentiu repugnância pelos acontecimentos, tanto que a intelectual anarquista Federica Montseny censurou a “sede de sangue inimaginável em pessoas honestas”. A única autoridade que não se importou muito com o terror vermelho foi o embaixador de Stalin; ele chegou a afirmar cinicamente que, naqueles momentos conturbados, era inevitável que uns marginais agissem de forma violenta.

O TERROR BRANCO

Os assassinatos nas áreas sob o domínio dos nacionalistas tiveram um caráter bem mais organizado e sistemático. Já no final de junho de 1936 o general Mola havia derramado ordens para as tropas rebeldes especificando que elas deviam “eliminar os elementos de esquerda, os comunistas, os anarquistas, os sindicalistas, os maçons, etc.”. O general Queipo de Llano forneceu uma lista mais simples e abrangente dos inimigos a serem fuzilados, ou seja, todos os que simpatizavam com as “correntes sociais avançadas ou com os movimentos de opinião democrática e liberal”. Um assessor de imprensa do general Francisco Franco, líder dos militares golpistas, declarou à imprensa americana que deviam ser mortos todos os “vermelhos” visando “exterminar um terço da população masculina e varrer o proletariado da nação”.

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A repressão iniciava logo que uma área havia sido conquistada e, entre os primeiros a serem fuzilados, estavam as autoridades civis que não haviam aderido ao golpe, os sindicalistas, os prefeitos e os funcionários públicos. Mas também foram vítimas das matanças os professores (6.000), os intelectuais, os médicos e até as datilógrafas que haviam trabalhado para os comitês revolucionários. Na verdade qualquer pessoa suspeita de ter votado para a Frente Popular estava em perigo, principalmente os maçons, tanto que na cidade de Huesca foram fuziladas 100 pessoas acusadas de serem membros da Maçonaria, embora a loja maçônica da cidade contasse apenas uma dúzia de afiliados. Também os oficiais fieis à república foram assassinados, inclusive sete generais e um almirante acusados de “rebelião” mas que, na verdade, haviam somente obedecido às ordens de seu governo legítimo.

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O análogo nacionalista das “checas” foram os comitês locais compostos pelo fazendeiro mais rico, pelo comandante da polícia, por um falangista e um sacerdote. Frequentemente os cadáveres ficavam expostos por vários dias nas praças públicas, mas a Teruel 1.005 corpos foram lançados em poços naturais fundos 84 metros. Era prática comum matar os inimigos feridos usando baionetas ou granadas. Na região da Navarra foram justiçadas 2.789 pessoas; em Sevilha a repressão causou cerca de 8.000 mortos e a Córdoba mais de 10.000, ou seja, a décima parte da população. Uma das cidades que mais sofreu pela violência dos nacionalistas foi Badajoz onde o total das execuções alcançou 12.000. No entanto, a cidade onde a barbárie golpista foi desencadeada ao extremo foi Málaga. Enquanto nela os “vermelhos” haviam eliminado 2.000 oponentes, os nacionalistas fuzilaram 3.500 inimigos na primeira semana de ocupação e nos meses seguintes os tribunais condenaram à morte mais outras 16.952 pessoas.

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A Granada, onde perderam a vida cinco professores universitários, o famoso poeta García Lorca, embora não afiliado a algum partido, foi retirado da casa de um amigo -o poeta falangista Luis Rosales– e imediatamente fuzilado. Perto de Gibraltar um falangista testemunou que a esposa de um socialista foi violentada pelo pelotão de execução –composto por marroquinos- por muitas horas antes de ser fuzilada. Um jornalista americano esteve presente quando duas moças foram entregues às tropas muçulmanas para serem estupradas até morrer. Os soldados rebeldes e os falangistas não respeitavam nem o sexo nem a idade das pessoas e inúmeras crianças foram eliminadas junto com seus pais. O terror desencadeado pelos nacionalistas foi tamanho que até os fascistas italianos criticaram Francisco Franco pela excessiva brutalidade com que suas tropas tratavam os prisioneiros e a população civil.

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Estudos recentes indicam que o total das vítimas do “terror branco”, tanto durante como depois da guerra, ultrapassa 200.000 pessoas. Quando a guerra terminou (1° de abril de 1939) 700.000 ex soldados republicanos foram internados em 50 campos de concentração mas, de acordo com dados da Cruz Vermela, esse número dobrou rapidamente. As condições de vida nesses campos e nos presídios eram péssimas, parecidas às dos lager nazistas, tanto que o diretor do cárcere de Barcelona afirmou: “Falo aos presidiários: vocês tem que lembrar que um detento é a milionésima parte de uma merda”. Processos e fuzilamentos continuaram por muitos anos e um dos casos mais espantoso foi o massacre de treze moças -entre 15 e 17 anos- fuziladas em 1939 junto com 43 jovens dissidentes acusados de terem planejados um atentado contra um general.

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Em nenhuma outra nação da Europa a vingança dos vencedores foi tão desapiedada e dura. A palavra “reconciliação” jamais foi pronunciada pelo regime de Francisco Franco o qual, ao contrário, em 1940 promulgou a “Lei especial sobre a repressão da Maçonaria e do Comunismo”. Os dados aqui apresentados deveriam servir como elemento de reflexão para quantos afirmam que a vitória dos nacionalistas foi o menor dos males, pois haveria supostamente poupado a Espanha de um regime comunista. Quem diz isso esquece que as eleições de 1936 entregaram o poder a um líder republicano moderado, e que os marxistas foram apenas uma das forças políticas da Frente Popular e nem a mais importante.

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BIBLIOGRAFIA

Antony Beevor. The Battle for Spain. Weidenfeld & Nicolson, London (1982)

Pierre Vilar. La Guerre d’Espagne (1936-1939). Presser Universitaires de France, Paris (1986).

Denis Mack Smith. Le Guerre del Duce. Edizione CDE S.p.A., Milano (1976).

 

 

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