CRISTIANISMO E RACIONALIDADE

Durante os últimos duzentos anos inúmeros cientistas, historiadores, filósofos, antropólogos e até cristãos racionais demonstraram repetidamente que, desde os primeiros séculos da nossa era, a triunfante Igreja cristã representou o pior inimigo e perseguidor da Ciência e da Razão. Até papa João Paulo II, em 1992, em ocasião da reabilitação de Galileu Galilei reconheceu publicamente que, nesse sentido, a Igreja “tem muitas culpas”. Mesmo assim, ainda circulam opúsculos e panfletos de apologética cristã como, por exemplo, os do jesuíta obscurantista W. Duvivier o qual, na revista Permanência, afirma que: “A Igreja eficazmente concorreu para a felicidade dos indivíduos e das sociedades; adquiriu também títulos ao reconhecimento dos homens em razão dos benefícios de ordem intelectual, que lhes trouxe.

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Galileu Galilei diante do tribunal da Inquisição

Ao longo desse artigo veremos quantos “benefícios de ordem intelectual” e quanta “felicidade” o cristianismo proporcionou aos seres humanos durante quinze séculos de absoluto e incontestado domínio. Mostraremos como, ao contrário, a Igreja foi ferrenha inimiga da Ciência em geral e da Medicina em particular gerando, com sua atitude ideológica, uma voragem cultural e científica que foi vagarosamente preenchida a partir do Iluminismo, na segunda metade do século XVIII.

Já na pré-história a medicina começou a sua transição de magia para ciência e, além do emprego de plantas medicinais, foram realizadas as primeiras operações incluindo a suturação de feridas e a cirurgia plástica. Em pleno Neolítico era praticada a trepanação craniana e os achados arqueológicos mostram que, de regra, era bem-sucedida.
Tantos os Egípcios como os Etruscos foram pioneiros na odontologia realizando próteses que ainda hoje suscitam a nossa admiração. Antigos papiros egípcios enfatizam a importância da limpeza e da higiene opinião, essa, partilhada pelos Mesopotâmios.

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Os Gregos e, ainda mais os Romanos, cuidavam bastante da saúde pública. Eles construíram e utilizaram sanitários públicos, esgotos, aquedutos, cisternas de água e banhos quentes e frios. Na Roma imperial as termas públicas, cuja entrada era quase de graça, eram frequentadas diariamente pela esmagadora maioria da população. Naqueles estabelecimentos, homens e mulheres, livres e escravos, não apenas podiam tomar banho quente e/ou frio, mas era possível praticar exercícios físicos, esportes e ter acesso a grandes bibliotecas. Até onde chegou a civilização romana, entre as primeiras providências a serem tomadas pelos antigos urbanistas estavam o aqueduto, o esgoto e as termas; tudo isso no intento de pôr em prática a sábia locução do poeta romano Juvenal que dizia: “Mens sana in corpore sano”. O poeta queria lembrar àqueles dentre os cidadãos que faziam orações tolas, que tudo que se deveria pedir numa oração era saúde física e espiritual.

No Mundo Antigo surgiram várias escolas de medicina e se afirmaram os gênios que ainda hoje são considerados os “pais” da medicina moderna, em particular, o grego Hipócrates (460-370 a.C) e o romano Galeno (129-217 d.C.). Hipócrates foi o primeiro a afirmar que cada doença tinha causas naturais e não sobrenaturais.
O médico romano Aulo Cornélio Celso (25 a.C – 50 d.C.) relatou detalhadamente a preparação de numerosos medicamentos, incluindo um preparado anestésico de opióides; também descreveu muitos procedimentos cirúrgicos praticados no primeiro século, como a remoção de catarata, o tratamento de pedras na bexiga e a consolidação de fraturas. Celso sublinhou a importância da higiene e afirmou que era melhor prevenir as doenças de que curá-las.

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Durante toda a Antiguidade a população do Império Romano pôde desfrutar das termas sem limites. Além disso, não havia cidade, grande ou pequena, que não recebesse água limpa e potável e não tivesse uma boa rede de esgotos. Consequentemente as epidemias nunca tiveram efeitos tão devastadores como aqueles que assolaram a Europa durante a Idade Média. Por exemplo, foi calculado que a Peste negra (1347-1353) dizimou 75 milhões de pessoas, mais de um terço da população europeia. Essa e outras pandemias de peste bubônica, espalhas peleas pulgas dos ratos, poderiam ter sido coibidas com a aplicação de simples normas higiênicas, mas o Cristianismo abominava tudo o que estava relacionado à higiene. O que antes era considerado um direito humano e uma virtude pessoal, passou a ser enxergado como um desafio às leis divinas, um pecado capital. As cidades de época medieval eram verdadeiros lixeiros, povoadas por hordas de ratos que, coabitando com os seres humanos, transmitiram a doença. Quem levou a culpa pelo contágio foram as bruxas e o Judeus, queimados a milhares nas cidades da Europa central.

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Poucos decênios após a morte de Galeno, a Igreja cristã começou a substituir o conceito de medicina científica com elementos sobrenaturais deduzidos das Escrituras. Os conhecimentos adquiridos durante vários séculos de trabalho experimental foram abandonados e muitos livros queimados. Foi o próprio Paulo de Tarso que recomendou essa prática e, com efeito, na cidade grega de Éfeso “muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na presença de todos” (Atos 19, 19). O termo “artes mágicas” significava matemática e geometria e não bruxaria, tanto que até Eusébio bispo de Emesa (295-359 d.C.), matemático e astrônomo, teve que fugir da cidade após ter sido acusado, pelos seus ignorantes fiéis, de ser servidor do diabo.

A filosofa Hipátia, chefe da Escola Platônica em Alexanria foi esfolada viva e queimada no ano 415 d.C. sob a acusação de ser uma bruxa quando, na verdade, foi um dos mais eminentes matemáticos do Mundo Antigo. Infelizmente, no início do V século, estudar matemática significava tentar investigar a mente de Deus, uma ação considerada blasfema. Em 391 d.C., sempre na cidade egípcia de Alexandria, o patriarca Teófilo instigou uma tropa de monges exaltados a atacar e destruir totalmente o magnífico Serapeu, santuário monumental considerado uma das maravilhas do Mundo Antigo. Naquela ocasião os cristãos não apenas saquearam e assolaram os edifícios, mas atearam fogo na biblioteca composta por milhares de livros contendo boa parte da Ciência da época.

Em todo o Império romano inúmeros livros científicos e filosóficos foram queimados ou “perdidos” e, devido o pergaminho ser caro, os cristãos tiveram a brilhante idéia de raspar os textos pagãos para reaproveitar as páginas. Famoso é o caso de sete tratados de Arquimedes (Palimpsesto de Arquimedes) que, em 1229, foram reciclados como livros de orações e recuperados em 1906. Poemas de Cátulo foram encontrados servindo como rolha em um barril de vinho de Mântua e, no século XIX, o diplomata britânico Robert Curzon descobriu obras “perdidas” de Euclides e Platão usadas como vedação nos frascos de azeite em um mosteiro copta. Como resultado do fanatismo religioso, os soberanos cristãos e os Papas descuidaram tanto da higiene pública em Roma que a população da cidade caiu de 1,5 milhões de habitantes durante o primeiro século a cerca de 20.000 no sexto século.

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O palimpsesto de Arquimedes restaurado

Com a perda progressiva e irreversível dos conhecimentos médicos, a Igreja impôs o dogma de que as doenças podiam ter apenas duas causas: o pecado ou a possessão demoníaca. Cada pecado acarretava um tipo de doença; por exemplo, os hereges eram acometidos por disenteria até morrer. A cura estava exclusivamente no arrependimento, nas penitências e, acima de tudo, nas mãos de Deus. Qualquer tentativa de obter a cura por meio da medicina foi considerada magia negra pois o médico estaria interferindo com a santa vontade divina que havia causado ou permitido a doença. Afinal, o respaldo estava na própria Bíblia e, entre as primeiras providências, a Igreja proibiu que os leigos, sob a ameaça de serem tratados como criminais, praticassem a medicina reservando essa arte exclusivamente aos monges. Mas logo, no sínodo de Clermont (1130), também os monges foram proibidos: apenas o clero secular manteve essa prerrogativa. Trinta anos depois, o Concílio de Tours (1163) estabeleceu que todos os estudos de natureza física, incluindo-se a medicina, deviam ser considerados pecaminosos e quem os praticasse estava agindo em aliança com o demônio. Quem assistiu o filme “O Físico”, lançado no Brasil em 2014, sabe do que estamos falando.

Outro resultado prático dessa atitude anticientífica foi a proibição de efetuar pesquisas médicas, e até os antigos conhecimentos foram rapidamente banidos e esquecidos.
Por exemplo, o médico grego Alcmeão de Crotona cinco séculos antes da nossa era já havia identificado o cérebro como sede do pensamento, mas 2.000 anos depois as autoridades cristãs ainda impunham a crença que o cérebro era apenas uma glândula deputada à secreção da fleuma. É verdade que a anatomia de cadáveres era tolerada em umas universidades selecionadas, mas nada de valor foi aprendido devido à proibição da pesquisa; isso fez com que a medicina se tornasse uma ciência morta, uma mera decoração de conceitos ultrapassados. Dissecções foram efetivamente realizadas na famosa Escola Médica de Salerno (Itália) a qual, sem seguir à risca as prescrições da Igreja, baseou suas noções principalmente sobre a experiência prática e sobre o estudo meio clandestino de textos árabes e judaicos. Anatomistas independentes, como Leonardo da Vinci, tiveram que realizar seus estudos em absoluto sigilo.

Apesar do renome dessa Escola e de poucas outras, a medicina na Idade Média havia regredido em todos os setores na Europa cristã. Os muçulmanos que entraram em contato com os cristãos, como o famoso historiador Usamah ibn Munqidh, ficaram chocados com a crueza da medicina e da saúde pública no mundo ocidental. Enquanto os muçulmanos tomavam banhos frequentes e ensinavam que era boa norma lavar as mãos antes das refeições, os cristãos submeteram-se à superstição de que a higiene era um grave erro. Não era considerado decoroso que um cristão removesse a sua honesta sujeira, pois o Padre da Igreja São Gregório de Níssa (330-395 d.C.) havia ensinado que a vida humana não passava de “um monturo” e que, consequentemente, devia ser considerado pecado qualquer ato que desse prazer ao corpo, não somente as lavagens, mas até cheirar uma flor o admirar um lindo por-do-sol.

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Durante toda a Idade Média, mas também em épocas sucessiva, o ideal cristão mais elevado, um verdadeiro preceito, era manter uma existência hostil ao corpo e aos instintos naturais como a alimentação e a sexualidade. Ao contrário, era tida como santa toda atitude que patologicamente renegasse qualquer forma de prazer, ou seja, a abstinência, os jejuns, as lágrimas, a sujeira, a insônia forçada e todas as práticas masoquísticas como o cilício e a flagelação. Santa Caterina de Siena (1347-1380) afirmou que as lavagens do corpo não eram apropriadas para a “esposa de Cristo” e o místico espanhol São João de Ávila (1499-1569) proclamou a sua repulsão para com o corpo, considerando-o “um lixeiro, algo de asqueroso”. A loucura de certos ascetas chegou a ultrapassar os limites da imaginação mais perversa. Foi o caso de Margarida de Alacoque (1647-1690), santificada por papa Pio IX, que, por penitência, tomava somente água servida, comia pão com mofo, e costumava engolir as fezes de doentes acometidos pela diarréia. São Francisco de Assis (1182-1226) se gabava de ter o corpo coberto de piolhos que considerava “seus irmãos”. Não muito diferentes foram as místicas Santa Ângela de Foligno (1248-1309) que bebia a mesma água usada para lavar os leprosos, e Santa Catarina de Gênova (1447-1510) que adorava lamber a sujeira dos pobres engolindo, junto, fezes e piolhos.

Em geral, quem mais sofreu foram as mulheres. Segundo o ideal cristão, para elas era bem melhor morrer do que pedir auxílio a um médico. Valia, para todas, o exemplo de Santa Gorgônia (375 d.C.) a qual, após ter sido pisoteada por uma mula que quebrou-lhe uns ossos e esmagou órgãos internos, recusou que um médico cuidasse dela, pois não achava isto decente. Segundo a lenda, foi esta modéstia que a curou. Para a Associação Apostolado do Sagrado Coração de Jesus, essa santa ainda representa um modelo de virtude a ser seguido pelas mulheres brasileiras! Quanto às cesarianas, praticadas com sucesso já na Antiga Roma e na China, durante toda a era cristã foram (e objetivamente eram) consideradas mortais e, portanto, realizadas muito raramente. Todavia, junto aos Árabes essa prática era relativamente comum e bem-sucedida.

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No que diz respeito à vida sexual, o pagão Galeno havia sugerido que tanto as relações sexuais como a masturbação eram hábitos saudáveis, idéia adotada também pelo médico persa Avicena (980-1037) retratado no filme “O Físico”. O teólogo alemão Johann von Wesel (†1481), estudou e defendeu estas idéias, mas acabou sendo condenado por heresia em Mainz em 1479 pela Inquisição e morreu dois anos mais tarde, sob pena de prisão perpétua. Em geral na cristandade, a partir do ano 300 d.C. até o início do século XVIII, todas as condições mentais graves foram entendidas como sintomas de possessão demoníaca. Posto que essa e outras doenças eram tidas como sendo causadas por agentes sobrenaturais, também a cura tinha que ser essencialmente sobrenatural. No entanto, caso se tornasse necessário, a tortura era considerada uma terapia legítima. O médico holandês Johann Wier (1515–1588) criticou com força a caça às bruxas promovida pelas autoridades católicas e civis e foi o primeiro a utilizar o termo doente mental para designar uma mulher acusada de bruxaria; a Igreja o denunciou e proibiu a leitura de seus livros.

De modo geral qualquer tipo de investigação científica ou filosófica foi sujeita a penas severas, especialmente depois que a Inquisição começou a operar na Europa. Pedro de Abano (1250-1316), médico fisiologista italiano e cientista de fama internacional, foi acusado de praticar a magia pelo tribunal da Inquisição e absolvido em 1306. Acusado de novo em 1315, morreu durante a instrução do seu processo devido as torturas às quais foi submetido. Francesco Stabili (1269-1327), mais conhecido como Cecco de Ascoli, foi poeta, médico, astrônomo e mineralogista de renome. Ele não teve a sorte de morrer na prisão igual Pedro de Abano e acabou sendo queimado vivo em Florença aos setenta anos de idade.

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Um professor de medicina da Universidade de Bolonha, que costumava usar transplantes de pele em cirurgias plásticas, foi acusado de ofender a religião. Qualquer forma de anestesia foi proibida sob a alegação que se Deus desejava o nosso sofrimento, tínhamos que aceitá-lo sem procurar amenizá-lo; inclusive, foi considerado melhor, em caso de gravidez ectópica, que a mulher grávida aceitasse a vontade de Deus e morresse, antes que se submeter a qualquer procedimento cirúrgico.

Pouquíssimas eram as terapias permitidas e a mais comum era o exorcismo, para caçar os demônios do corpo do doente; todavia, quando esse recurso se revelava insuficiente, eram preparadas misturas contendo baratas, vísceras de sapo, escorpiões esmagados, urina, vômitos, lesmas e outras iguarias parecidas. Era opinião comum que, tomando essas porcarias, os capetas que haviam causado a doença saíssem do corpo assustados pelo gosto horrível do remédio. Quando uma epidemia atingia uma população, os devotos cristãos se reuniam, de regra descalços, em igrejas para rezar ou organizavam procissões solenes como durante a peste de Milão em 1631. Destarte aceleravam a propagação da infecção com as consequências que bem podemos imaginar. Em algumas cidades francesas, durante a Semana Santa, as prostitutas locais eram obrigadas a morar nas mesmas casas dos leprosos. Um autêntico ato de piedade e uma forma bastante eficaz de profilaxia!

O estado lastimável da medicina na Europa ocidental melhorou na Renascença em virtude das trocas culturais com estudiosos bizantinos. Muitos conhecimentos médicos de época clássica haviam sobrevivido no Império bizantino devido a Igreja ortodoxa nunca ter exercido o poder político como na Europa; é por esse motivo que ainda hoje a grande maioria dos termos usados na medicina moderna deriva da língua grega. Na fase final da Renascença, o médico suíço Paracelso (1493-1541) chegou à conclusão que muitas doenças eram originadas por entidades parecidas com minúsculas sementes que invadiam o corpo através do ar, de alimentos e de bebidas. Agentes diferentes atacavam órgãos diferentes causando, assim, doenças diferentes. Em essência, ele havia identificado corretamente o mecanismo pelo qual muitas doenças infecciosas são comunicadas. No entanto, a Igreja se opôs ao método científico e hostilizou às descobertas de Paracelso.

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A primavera renascentista foi enfim varrida pela Reforma protestante e pela Contra-reforma católica. Lutero enxergava qualquer argumentação lógica como perigosa para a Cristandade e declarou que “Para ser um cristão é necessário arrancar o olho da Razão”, tida por ele como a “prostituta do demônio”. Calvino, por sua vez, mandou queimar na fogueira o grande pioneiro da medicina Miguel Servet (1511-1553).
A Contra-reforma estabeleceu que a Igreja fosse a única entidade autorizada a permitir a prática da arte médica. Durante todo o século XVII não houve algum avanço significativo tanto que, em muitos aspectos, as práticas médicas dos povos indígenas da América do Sul eram mais eficazes que as da Europa. Os índios realizavam trepanações e amputações, extirpavam tumores e usavam anestésicos; haviam desenvolvido próteses e usavam mandíbulas de formigas como grampos em suturas.

Vagarosamente a situação começou a evoluir durante o século sucessivo, mas sem que a Igreja abrisse mão de seu ferrenho controle sobre os estudos e as aplicações da medicina. Em 1798 o médico britânico Edward Jenner desenvolveu uma vacina eficaz contra a varíola que logo foi adotada em muitas nações da Europa. Mesmo assim, ainda em 1829, papa Leão XII afirmou que: “Qualquer pessoa resolva usar essa vacina deixa de ser um filho de Deus: a varíola é um castigo enviado por Deus, portanto a vacinação é um desafio contra o Céu!”.

A nefasta influência do catolicismo ainda pode ser observada na Itália, nação dominada culturalmente pela Igreja e pelo Vaticano. Esse País foi, entre os demais da Europa, o último a admitir o uso da morfina para o tratamento da dor crônica. Ainda hoje o consumo per capita de alcalóides do ópio é mais baixo que em nações como Alemanha, França, Grã-Bretanha e até Espanha e Portugal. Nos hospitais italianos os médicos de formação católica desaconselham esse tipo de tratamento devido, intimamente, acreditar que a dor e o sofrimento servem para purgar os pecados e ganhar o céu.
Um tipo de pensamento compartilhado por Madre Teresa de Calcutá, sempre prona a justificar a dor física (dos outros!) e a deixar morrer os pobres em condições lastimáveis. Todavia, quando ela mesma ficou doente, não hesitou procurar a melhor clínica particular dos Estados Unidos.

 

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Apesar das inúmeras evidências, não poucos apologistas continuam defendendo a tese que o Cristianismo “concorreu para a felicidade dos indivíduos e das sociedades” alegando, entre outras mentiras, que a Igreja teria rejeitado a escravidão. Na verdade o escravismo dominou o sistema de produção desde épocas remotas e os Hebreus nada fizeram se não se adequar a esse sistema. O ensino da Bíblia é ainda mais aberrante pois chega a permitir que um judeu possa vender a sua própria filha como escrava por finalidades sexuais “Se um homem vender sua filha como escrava, ela não será liberta como os escravos homens” (Êxodo 21,7). Em seguida Paulo de Tarso, contradizendo o ensinamento de Jesus, afirmou que os escravos devem se conformar à sua condição “Foste chamado sendo servo (escravo)? Não te dê cuidado…” (Coríntios 7,20) e ainda “Todos os servos (escravos) que estão debaixo do jugo estimem a seus senhores…” (Timóteo 6,1). É evidente que com o respaldo das Escrituras, toda a Igreja antiga tenha obstaculado qualquer tentativa de emancipação dos escravos.
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Também os Doutores da Igreja dos séculos IV e V concordam sobre a legitimidade da escravidão: Santo Ambrósio (340-397 d.C.) define a escravidão uma “dádiva de Deus” (Ambrósio, De paradiso 14,72) enquanto Santo Agostinho de Hipona (354-430 d.C.) afirma a escravidão ser justificada pela natural desigualdade entre os homens (Agostinho, Ennarrationes in psalmos 124,7).  Se nos primeiros dois séculos da nossa era até os escravos podiam ter cargos oficiais na Igreja, a partir do ano 257 Papa Estêvão I proibiu que eles pudessem ser padres ou bispos. Sucessivamente os Papas, que haviam se tornado grandes latifundiários, utilizaram enormes quantidades de escravos para as lavras em suas terras e o mesmo fizeram muitos antigos mostérios.

A Igreja chegou ao ponto de inventar formas inéditas de trabalho escravo quando, durante o IX Concílio de Toledo (655), decretou que todos os filhos ilegítimos (que não eram poucos!) dos membros do clero, se tornassem escravos para sempre. Destarte a escravidão nunca foi condenada pela Igreja que, com a desculpa da evangelização, permitiu e até incentivou a captura dos indígenas na África e nas Américas. No Brasil, a nação mais católica do mundo, a escravidão só foi abolida em 1888, pouco mais de cem anos atrás.

 

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2 comentários

  1. Um trabalho minucioso de extensa pesquisa, especialmente interessante.
    A influência desastrosa do catolicismo manifestada por espíritos atrasados, tentaram
    impedir o avanço da ciência, da medicina. A sorte da humanidade é que não faltaram
    os que se imolaram perante as perseguições,esclarecendo com sabedoria os bons
    preceitos, apresentando trabalhos de importância, incrementando o crescimento e a libertação.

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  2. Outro belíssimo escrito teu… Va bene! A Mentira sobrevive · As Religiões se alimentam da desigualdade social. Uma joia o teu escrito. Deve sim ficar arquivado no espaço reservado aos tesouros da humanidade. Uma lavra que eu amaria desfrutar da presença real tal e qual do saber, de te ouvir falar e contar e partilhar à guisa do tanto e quanto tens e que talvez eu não tenha o tempo que desejaria ter para absorvê-lo em toda a sua grandeza maior. Um escrito que discorre e justifica porque tenho tal admiração pelas palavras/histórias/estudos do poeta, físico, filósofo, professor, mestre, mentor brilhante que admiro tanto. Parabéns! (quiçá eu pudesse ser sua filha, aluna/aprendiz-Sua Senhora ou escrava de tuas ideias, CATIVA-ME. ela (a escravidão de ti em mim) certamente não libertaria-me de mim, mas libertaria-me como os escravos libertam os homens/senhores que os prendem e estes seguem presos eternamente aos grilhões das suas rasas consciências imaginando-os que os mantem escravos de sua liberdade de pensar. Ahhh, essas asas! Quem há de cortar o pensamento? LIBERDADE! Príncipe da Liberdade: Todos o(a)s servo(a)s (escravos) que estão debaixo do jugo das ideias estimem a seus senhores… Estimo-o. Parabéns! Um abraço beijado com os desejos de um profícuo 2017 e que estejamos senão no mesmo, mas ao lado. Tim Tim!

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