MORTE E RESSURREIÇÃO DO PAGANISMO

Seria muito interessante realizar uma enquete entre o público não especializado perguntando qual a imagem mental que os entrevistados têm do Paganismo.
Devido os principais veículos de informação histórica serem o cinema, principalmente o de Hollywood, produtor de filmes como Ben Hur, Quo Vadis, Os últimos dias de Pompéia, etc. para não falar nas novelas da Rede Record e outras fontes literárias condescendentes ao Cristianismo, provavelmente todos iriam responder que os pagãos eram ruins, malvados, falsos, sádicos, materialistas, despóticos e viciosos, ou seja, a quintessência do mal.
E, acima de tudo, idólatras, portanto inimigos de Deus.

Vamos começar confutando essa última asserção.
Na verdade, como observa Voltaire, nunca existiu na face da Terra um povo que afirmasse adorar os ídolos. As estátuas nos templos tinham apenas uma função alegórica, análoga às imagens sagradas nas igrejas cristãs. Tanto os Romanos quanto os Gregos se ajoelhavam e oravam diante das estátuas, ofereciam flores e queimavam incenso, as carregavam nas procissões pedindo milagres e benevolência. Os cristãos santificaram esses rituais e nem por isso foram apelidados de idólatras.

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Voltaire (1694-1778)

Tudo o que se pode dizer em relação aos pagãos é que eles eram politeístas, pelo menos a era a populaça, a que seguia o paganismo exotérico, oferecido a todos. Ao lado de doze deuses maiores (seis deusas e seis deuses), havia uma exuberância de divindades menores úteis para resolverem os vários problemas cotidianos; existia até um deus, coitado, que protegia as latrinas.
O Cristianismo substituiu essas figuras com as dos santos, a serem suplicados em caso de necessidades específicas como doenças em várias partes do corpo, dinheiro, amor e casamento, desemprego e até causas impossíveis.

No entanto, vale a pena lembrar que no Paganismo esotérico (os Mistérios) reservado a poucos, aos iniciados era revelada e existência de um único Deus.
Durante as cerimônias secretas não apenas não eram praticados atos contra a moral (as famosas orgias tão caras aos produtores de Hollywood), mas, muito pelo contrário, os iniciados recorriam a um conjunto de práticas ascéticas como o jejum, a flagelação ou a raspagem da cabeça.
No caso do Culto Dionisíaco, durante o inverno, as Bacantes, descalças e vestidas com roupas leves, subiam às montanhas cobertas de neve para se entregarem a danças agitadas. Nos Mistérios de Elêusis, depois de um dia de descanso e de purificações, decorriam as cerimônias no interior de um recinto, denominado telestérion, durante as quais os fieis cantavam um hino cujas palavras eram as seguintes: “Contemple a natureza divina, ilumine o teu espirito, governe o teu coração, caminhe em direção da justiça; que o Deus do céu e da terra seja sempre presente diante de teus olhos: Ele é único e existe por si mesmo.

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Os Mistérios (afresco pomepiano)

O filósofo pagão Epiteto, que havia vivido muito anos como escravo, proclamou o seguinte: “Deus me criou, Deus vive dentro de mim; eu o carrego em todos os lugares. O meu dever é agradecer a Deus por tudo, louvá-lo por tudo, e de nunca deixar de abençoá-lo até quando eu tiver vida!“.
Outro filósofo, Plotino, refere-se a Deus (o Uno) como primeira hipóstase, sendo que sua principal característica é a indivisibilidade: “É em virtude do Uno (Unidade) que todas as coisas são coisas.
Também Marco Aurélio, o imperador filósofo, mostra acreditar num só Deus, eterno e infinito: “A nossa alma é uma emanação da Divindade. Os meus filhos, o meu corpo, os meus sentidos procedem todos de Deus“.

É verdade que tanto Marco Aurélio como outros pensadores da Antiguidade, com a finalidade de se conformarem à linguagem da época, frequentemente falam nos deuses. Isso, porém, não deve nos enganar pois os deuses, de acordo com o pensamento de Sócrates e de Platão, nada seriam se não daimónion, seres intermédios entre Deus e o homem, cuja função era de guiar os mortais em suas ações direcionando-os para o bem.  Trata-se, portanto, de guias de origem divina ou até de formas de “consciência moral” que agem mediante uma voz interior.
O Cristianismo desnaturou esses seres transformando-os em demônios quando, na verdade, teria sido muito mais honesto e correto chamá-los de “anjos da guarda”.

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Os Mistérios tinham, como base de sua doutrina, a crença na imortalidade da alma, a qual era totalmente ignorada pelos Hebreus, tanto que na Bíblia lemos: “O destino do homem é o mesmo do animal; o mesmo destino os aguarda. Assim como morre um, também morre o outro. Todos têm o mesmo fôlego de vida; o homem não tem vantagem alguma sobre o animal.” (Eclesiastes 3,19).

Os Saduceus, seita mencionada pelo historiador Flávio Josefo e tida por ele como elitária na sociedade da antiga Judéia, afirmavam que Moisés nunca havia falado sobre a imortalidade da alma e não acreditavam na ressurreição dos mortos. Foi Paulo de Tarso, profundo conhecedor e admirador dos Mistérios, que introduziu no Cristianismo nascente o conceito de vida no além. Nesse sentido a nova religião incorporou não apenas conceitos oriundos de outras religiões contemporâneas como o Mitraísmo, mas também elementos típicos dos antigos Mistérios clássicos como, por exemplo, a eucaristia.

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Um templo de Mitra

Talvez a principal característica da religiosidade pagã tenha sido a radical imanência divina; em outras palavras a Divindade se encontra na própria natureza (e nos seres humanos), manifestando-se através dos seus fenômenos. Essa relação pessoal entre os mortais e os deuses (ou Deus), comporta a total ausência de dogmas ou estruturas religiosas padronizadas gerando, destarte, uma grande liberdade de culto.

Com efeito, os Antigos Romanos, conforme ao ideal pagão, foram extremamente tolerantes em relação aos outros cultos, desde que não infringissem a Lei e reconhecessem ao imperador o valor simbólico de guia espiritual da nação, de entidade especial protegida pelos deuses. O motivo pelo qual os cristãos se reuniam nas catacumbas não era de se esconder das autoridades, mas de se afastar do mundo, de evitar até o menor contato com o Paganismo, religião por eles considerada perversa e demoníaca. Uma atitude, essa, que denota a intolerância típica de quem, achando-se único e legítimo representante de Deus, recusa diálogo e confronto e se prepara para o dia em que, alcançada enfim uma posição dominante, terá o sagrado dever de esmagar e exterminar seus oponentes satânicos.

A Igreja nos transmitiu uma imagem deformada e exagerada das perseguições sofridas pelas comunidades cristãs. Se ouve perseguições nunca foi por motivos eminentemente religiosos. A verdade é que os cristãos recusavam, por exemplo, o serviço militar, as festas pagãs, as procissões e o teatro, além de pregar que o Deus deles era o único verdadeiro enquanto os outros não apenas eram falsos, mas deviam ser considerados encarnações do mal absoluto. Consequentemente os adeptos das demais religiões eram tidos como pecadores iníquos e pervertidos.
É óbvio que os pagãos não gostaram nem um pouco de serem considerados filhos do demônio e, por isso, revidaram.
Mesmo assim as persecuções foram basicamente dirigidas contra a cúpula responsável das estruturas financeiras da Igreja e poucas pessoas foram atingidas de forma direta, tanto que o teólogo patrístico Orígenes afirma que o número de mártires cristãos “é pequeno e fácil de se contar” (Orígenes – Contra Celsum 3,8).

Observamos que até o início do V século os cristãos eram numerosos apenas na parte oriental do Império, mas quase não existiam na parte ocidental. A prova é que no Primeiro Concílio de Nicéia do ano 325, de 313 bispos presentes, apenas sete vinham da parte ocidental. O nível cultural desses bispos era tão baixo que um autor contemporâneo, Sócrates Escolástico, os apelidou de “cretinos” (Historia Ecclesiastica 1,8).

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Difusão do Cristianismo (áreas escuras) no ano 325 d.C.

Até que a Igreja cristã foi perseguida, nunca cessou de invocar a tolerância e a liberdade religiosa. Todavia, logo que começou a receber o apoio dos imperadores, tornou-se cada vez mais intolerante e persecutória usando a violência para aniquilar os antigos cultos pagãos, aplicando, ao pé da letra, as palavras da Bíblia: “Portanto, exterminarás todos os povos que o Eterno, teu Deus, te entregar. Que teus olhos não tenham piedade deles…” (Deuteronônio 7,16).
Já em 325 d.C. Constantino I, renegando o Edito da Tolerância de 313, havia desencadeado uma perseguição contra os cristãos considerados hereges, como Nestório, Ário e os Montanistas. A primeira proibição efetiva dos cultos pagãos foi decretada pelo imperador Teodósio I em 381 d.C.: o Cristianismo tornou-se religião oficial do Estado e os outros cultos foram extintos com a força. Logo em seguida os cristãos foram estimulados a saquear os templos e a converter os pagãos de forma compulsória. Quem não obedecia tinha seus bens confiscados e podia ser condenado à morte.

Todo o Oriente Médio e a África do Norte foram varridos por uma onda de violência religiosa que atingiu tanto as cidades como o interior: em 388 os monges atearam fogo na sinagoga de Calínico semeando o terror nas aldeias da Síria.  Bandos de monges exaltados, liderados por Scenute de Atripe, patrulhavam as cidades do Alto Egito em busca de estatuetas pagãs. Essa onda de terrorismo religioso desmoralizou tanto os derradeiros pagãos que um deles escreveu: “Se nós estamos vivos, então é a própria vida que está morta!

A situação ficou particularmente dramática na metrópole egípcia de Alexandria onde o bispo Teófilo mandou incendiar a famosa biblioteca acervo de milhares de livros que continham toda a cultura da Antiguidade.
Bem pior foi a sorte da filósofa neoplatônica Hipátia, a primeira mulher documentada como sendo matemática e astrônoma. Fanáticos monges Parabolani, às ordens de São Cirilo, a arrastaram pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi cruelmente torturada, sendo esfolada viva e tendo os olhos arrancados da cabeça. Agonizante, foi lançada a uma fogueira entre gritos de júbilo dos cristãos. Hipátia foi martirizada em março de 415 e o seu assassino, logo proclamado santo, foi também declarado Doutor da Igreja pelo papa Leão XIII em 1882.

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Destruição da Biblioteca de Alexandria

Em 435 as medidas contra o paganismo foram reforçadas com pena de morte para quem continuasse praticando rituais pagãos; também iniciaram as primeiras perseguições contra os Judeus.
Os Jogos Olímpicos foram extintos definitivamente em 394 e a Universidade de Atenas, a mais prestigiosa instituição cultural do mundo antigo, foi suprimida em 529.
Desde então os filósofos pagãos foram obrigados ao silêncio.

A ofensiva desencadeada pelo Cristianismo fez com que o Paganismo sumisse rapidamente das cidades, mas essa antiga religião continuou sendo praticada no campo que, em latim, era chamado pagus. Foi assim que surgiu a palavra pagão, uma expressão de desprezo análoga a vilão, rude, plebeu.
No entanto, devido o Paganismo afundar suas raízes na comunhão com a Natureza, tida como sagrada e viva, uma certa forma de culto sobreviveu na Europa ocidental, embora mitigado e misturado com elementos da religião cristã.
As pessoas que teimavam em praticar esses cultos, principalmente mulheres, se expunham ao grave perigo de serem acusadas de bruxaria e queimadas na fogueira.

As perseguições foram menos violentas no Império Bizantino, tanto que, como escreve Peter Brown, professor de História na Princeton University, não era incomum encontrar pequenos fazendeiros ligados à antiga religião em pleno século X.
Destarte, enquanto na Europa medieval os antigos filósofos gregos eram, com a exceção de Aristóteles, desprezados e esquecidos, em Constantinopla era inda viva a herança de pensadores como Pitágoras e Platão. Em particular, o filósofo e erudito neoplatônico Jorge Gemisto Pletão (1355-1452) auspiciava a restauração do politeísmo grego, ao qual devia subordinar-se o cristianismo. Pletão transferiu-se em Florença onde, com o auxílio de Cosme I de Médici, inaugurou a Academia Neoplatônica Florentina.

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Neoplatônicos a Florença (Luigi Mussini)

As melhores mentes da Renascença participaram dessa iniciativa e se dedicaram à tradução e ao estudo de textos clássicos; entre eles lembramos o cardeal alemão Nicolau de Cusa, um dos primeiros filósofos do humanismo renascentista, defensor da opinião que a Terra não é o centro do universo.  A Academia influenciou também muitos artistas da época como Sandro Botticelli, Leonado da Vinci, Pietro Perugino e outros.
A violenta ofensiva desencadeada pela Contrarreforma deu fim ao pensamento neoplatônico e não poucos intelectuais acabaram sendo queimados. A vítima mais famosa foi Giordano Bruno, defensor do panteísmo e da infinidade do universo.

O Neopaganismo ressurgiu na década de 1970 sendo caracterizado por enfatizar a sua conexão com temas antigos do Paganismo em uma forma de continuidade histórica.
No entanto, o aspecto mais saliente dessa religião é a veneração da Natureza, considerada como Mãe bondosa de todos os seres viventes.
Grupos que praticam a Wicca tem sido acusados, pelos cristãos, de adorar o Demônio, mas isso não passa de uma pérfida calúnia pois, na visão do wiccanos, Lúcifer e Satã simplesmente no existem.

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BIBLIOGRAFIA

– Voltaire, Philosophical Dictionary. Newton, Rome (1996)
Peter Brown, The World of Late Antiquity. Giulio Einaudi Editore, Turin (1974)
– Leo Zen, The Invention of Christianity. Gruppo Editoriale l’Espresso, Rome (2015)
Moreno Neri, Searching for Hypatia. Angelo Pontecorboli Editore, Florence (2016)
– Luciano Canfora, Cyril and Hypatia in the Catholic Historiography. Anabases – Tradition et recéptions de l’Antiquité, N. 12 (2010).

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2 comentários

  1. Acabei de ler um texto interessantíssimo do ponto de vista histórico! A grande questão é:
    (1) porque não crer no espiritismo?
    (2) porque não crer na igreja mórmon?
    (3) porque não crer simplesmente em mim mesmo?
    (4) O mais óbvio não é simplesmente crer que o homem em seu “perpétuo orgulho” , não aceita o fato de ser simplesmente um construtor e transformador do que, JÁ EXISTIA, independente de sua vontade? E a partir daí querer “intitular-se” dono do que lhe é ALHEIO? Mas gostei mesmo do que li! Obrigado pelo convite de aqui estar! Abraços.

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