OS MISTÉRIOS DAS CATEDRAIS

Advertência: para uma melhor compreensão desse texto, aconselhamos o leitor a ler primeiro o artigo intitulado: “Números e Esoterismo”.

 

Há um longo fio invisível na história da humanidade.
Um fio cuja origem se perde nas brumas do tempo, mas que, pelo menos para fixar as idéias, poderia começar, digamos, com o desenvolvimento das primeiras civilizações no Crescente Fértil: Egito, Mesopotâmia, Fenícia.

De lá, o fio continua e passa pela Grécia Antiga, a Magna Grécia, Roma e a Gália.
Continua com os Gnósticos e, nos anos do colapso do Império Romano Ocidental, prossegue com o trabalho de pensadores como Severino Boécio e os filósofos de Bizâncio. É recolhido pelo Sufismo árabe, mas algo fica preso nos arrebaldes do lago de Como, na Itália do Norte.

Reaparece na Palestina e dele se apoderam os Templários que o trazem de volta para a França. E, um pouco mais tarde, começam a surgir maravilhosas catedrais, igrejas e mosteiros em tal quantidade que, diz-se, em apenas três séculos é extraída mais pedra na França do que em todo o Antigo Egito no tempo dos faraós.

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O Eterno (William Blake)

Enquanto isso, a esse fio se juntam outros fios.
Aqueles da Cabala, da Alquimia e do Hermetismo. O fio chega na Escócia e daí desce para a Inglaterra no sec. XVIII embora, na realidade, estivesse lá há muito mais tempo. Desde então o fio é quase ubiquitário, mas ocorre saber como desembaraçá-lo com discernimento. Obviamente, não se trata de um fio material. Nem duma doutrina particular, mesmo se ela usa conhecimentos chamados de “esotéricos”. O fio invisível é algo que passa para o coração de cada ser humano, é a busca incessante do conhecimento, da Verdade e da perfeição não por meio de consolativos rituais exotéricos, mas mediante uma investigação profunda sobre a essência do Universo e da alma humana . Em uma palavra, é a busca de Deus.

Assim, no início do segundo milênio, povos que falam línguas diferentes se estripam reciprocamente, nos arredores de Jerusalém, para a glória do “verdadeiro deus”. Move-os uma fé cega, impetuosa, até sincera, mas, ao mesmo tempo, brutal e imbuída por dogmas e preconceitos de todos os tipos. Esses combatentes agem igual aos bandidos do Estado Islâmico: mais cabeças você corta e mais se escancaram as portas do paraíso.

Uma fé bem diferente da sensibilidade do imperador normando Frederico II da Germânia que, tendo abolido a tortura em seu sistema jurídico (1231), não tem medo de enviar aos sapientes do Islã quesitos de natureza espiritual e que, a propósito do recente dogma da  transubstanciação comenta, indicando um trigal: “Quantos deuses irão surgir desse campo durante a nossa vida?” [1]. E, como resposta aos que o acusam de impiedade, responde erigindo um maravilhoso castelo (Castel del Monte) que nada tem de militar, mas que representa uma apoteose ao oito, número cúbico perfeito do ponto de vista pitagórico.

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Castel del Monte

Enquanto isso, no norte da Europa, outros construtores se dedicam à sua missão espiritual: erguer catedrais. Eles desbastam pedras brutas com martelo e cinzel, as controlam com o esquadro, verificam, com o fio de prumo, se as paredes são verticais e, para ver se os pisos são planos, utilizam um nível. Alguns mestres supervisionam tudo certificando-se de que o trabalho seja executado em conformidade com o plano que eles próprios traçaram usando régua e compasso.

Estas são as suas ferramentas materiais, simples e eficazes como aquelas usadas pelos construtores das pirâmides do Egito, dos quais, ao que parece, conhecem muitos segredos. No entanto, a grande maioria desses construtores são analfabetos, mantem um estilo de vida simples e comunitário, tomam juntos suas refeições e descansar em barracos de madeira que eles chamam de lojas. A hierarquia interna é sólida, obedecem aos princípios de cooperação e de assistência mútua, e cumprem fielmente com a obrigação de não contar a ninguém os segredos de sua Arte.

Mas, como o arquiteto Imhotep havia morrido há mais de 4.000 anos, quem lhes ensinou tantos segredos? Na verdade, os Templários, que tiveram a oportunidade de investigar tanto os subterrâneos do que outrora foi o Templo de Salomão quanto a simetria da octogonal Cúpula da Rocha, voltam para casa carregados de tesouros e sabedoria. Claro, não que os arquitetos europeus sejam completamente leigos em arquitetura sagrada; no entanto, como diz Umberto Eco, “Os Templários sempre estão por trás de tudo” [2]. Talvez ele esteja certo. Enquanto isso, as catedrais crescem pra todo que é canto. Mas onde, exatamente?

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Templário

Antes de tudo nos lugares considerados sagrados pelos Celtas.
Com efeito, alguns missionários zelosos já haviam, há muito tempo, plantado ou entalhado cruzes nos megálitos de época Neolítica, como sinal de fé em Cristo.
Um esforço inútil, uma vez que a cruz já pertencia ao simbolismo celta…

De preferência são escolhidos lugares onde há uma nascente ou um rio subterrâneo, de regra fontes consagradas à Virgem Maria e às quais é atribuído o um poder taumatúrgico, conhecido há milhares de anos. Recentemente, cientistas britânicos confirmaram que essas fontes ou rios subterrâneos geram campos electromagnéticos caracterizados por propriedades inesperadas, ainda não completamente compreendidas [3].

Outra confirmação da sobrevivência da tradição celta, da qual se encontram vestígios em várias catedrais góticas, é o culto da Virgem Negra. Os pesquisadores a relacionam à Virgem-Mãe-Esposa Karidwen, venerada pelos Celtas seja como Deusa Branca (a Lua Nova), seja como Deusa Negra (a Lua Velha) deusa da morte e da adivinhação, que sobreviveu ao cristianismo. É evidente que as Virgens Negras encarnam significados semelhantes às de Ísis (Karidwen seria a sua versão celta), pois a sua localização original em câmaras subterrâneas as liga à deusa Mãe Terra. Em algumas inscrições dedicadas a essas imagens está escrito “Virgini pariturae” ou “Isidi, seu Virgini ex qua Filius proditurus est“, sem esquecer que uma estátua da própria Ísis foi encontrada durante escavações na catedral de São Estêvão em Metz [4].

A imagem abaixo mostra não Maria com o menino Jesus, como todos poderiam pensar, mas Ísis amamentando Hórus (pintura copta do terceiro século) [5].

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Destarte,  os fiéis, acham que estão venerando a Mãe de Cristo, mas na verdade homenageiam uma deusa do antigo Egito. No entanto, os construtores permanecem em silêncio. Ficam calados não por desprezo a pessoas humildes, ignorantes e, como tais, inclinadas ao fanatismo religioso, mas porque eles estão cientes de que o conhecimento esotérico não pode ser dispensado às multidões e que as pérolas não podem ser oferecidas aos porcos.

Além disso, os arquitetos são cristãos, pelo menos formalmente, assim como o foi o bispo Sinésio, discípulo e amigo de Hipátia.
Para o rebanho são suficientes as velas coloridas, as estátuas dos santos, o incenso, os sinos, os cânticos, as vestimentas e os sacramentos: apetrechos que, cerca de mil anos antes, eram usados pelos seguidores do culto de Mitra.
Afinal, as catedrais são lugares de culto (qual?), mas também servem como edifícios civis para realizar assembléias, peças de teatro ou mercados e até exposições de cavalos. Portanto, fica legitimado o uso de símbolos que pouco têm a ver com a ortodoxia católica.

Ao voltar para o “onde” nós sabemos que os mestres construtores têm uma concepção cíclica do tempo e atribuem grande importância à sucessão dos equinócios e solstícios, eventos astronômicos que marcam o ritmo quaternário do ano destacando o contraste entre dia e noite, luz e trevas. Por esta razão, os fabricantes projetam umas catedrais ligadas aos solstícios e equinócios, e outras relacionadas com constelações particulares como Orion, Coroa Boreal, Virgem, etc.

A este respeito, alguns estudiosos tentaram comparar o mapa das principais catedrais do norte da França, consagradas à Virgem Maria, com o da constelação da Virgem.
Aqui estão eles:

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À primeira vista, a semelhança é impressionante, mas ocorre considerar que na constelação da Virgem existem, além da luzente Spica, três estrelas com magnitude aparente menor de 3 e 97 estrelas com magnitude menor de 6. Portanto a questão é saber quais estrelas são escolhidas.
De alguma forma “As estrelas e os planetas ficavam suspensos em segurança acima da cabeça dos últimos pagãos, estátuas brilhantes dos deuses, muito distantes do vandalismo dos monges. Durante toda a Idade Média, as estrelas continuaram a flutuar sobre a Europa cristã, lembrete inquietante da imortalidade dos deuses” [5].

O plano da catedral tem sempre a forma de uma cruz latina que, simbolicamente, representa o ser humano. A abside corresponde à cabeça, o transepto aos braços, as naves ao corpo e às pernas enquanto o altar representa o coração. Por outro lado, o transepto corresponde aos equinócios e aos solstícios enquanto o eixo vertical corresponde ao polos em relação ao equador. A abside aponta para o Leste, na direção do sol nascente; uma porta olha para o Norte, frio e escuro, mas o portal principal aponta para o Oeste. Ao Sul, uma grande rosácea de vidro colorido deixa entrar a luz do sol em toda a sua glória.

A rosácea simboliza o Sol que, na mitologia celta, marcava os tempos cíclicos na vida dos seres humanos. Mas não se pode esquecer o fato que a rosa estilizada, na Grécia antiga, era associada ao culto de Afrodite, deusa do amor. No entanto, através do culto de Ísis, a sensualidade da rosa se torna mais fina, mais espiritual e, como tal, susceptível a ser incorporada na tradição cristã onde representa a Virgem Maria, a Rosa Mística.

A imagem seguinte mostra uma janela do transepto norte da catedral de Amiens, reconstruída após a Segunda Guerra Mundial, contendo o Pentágono e o Pentalfa.

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Nem sempre os arquitetos estão em perfeito acordo sobre qual tipo de geometria sagrada deva prevalecer, e as discussões entre especialistas levam a atrasos no trabalho, como no caso da Catedral de Milão que, na verdade, pertence ao estilo gótico tardio [6].
Embora nas catedrais a conspícua verticalidade da arquitetura enfatize o impulso dirigido da Terra ao Céu, de um ponto de vista esotérico o caminho é realizado no sentido oposto, ou seja, a partir da superfície da Terra para o seu interior: “Visita Interiora Terrae Rectificando Invenies Occultum Lapidem” (VITRIOL).
É por isso que, nos subterrâneos de muitas catedrais são cavados poços cuja profundidade corresponde exatamente à altura do pináculo mais alto. Na verdade, os construtores estão cientes de que qualquer trabalho na estrutura terrestre pode alterar o equilíbrio cósmico, sendo que a Terra é um organismo vivo que não pode ser profanado impunemente. Então, eles se cautelam e, no momento da colocação da primeira pedra, que também representa o início de seu próprio caminho de edificação espiritual, pedem que um astrônomo supervisione a cerimônia.

Várias catedrais são dedicadas ao culto de São Miguel, o do dragão e, se de um ponto de vista cristão a imagem do Arcanjo simboliza a vitória de Cristo sobre o pecado, do ponto de vista esotérico representa o triunfo final da luz sobre a energia escura e indiferenciada da Terra. Objetivamente, a catedral gótica é o ponto focal de convergência da energia cósmica oriunda das estrelas e da energia telúrica gerada nas entranhas do nosso planeta: a função do templo é, portanto, a de condensar e distribuir a energia vital desencadeada pelas forças do universo.

As esculturas presentes nestes templos representam quer animais reais, quer criaturas mitológicas e fantásticas. Apesar da clara origem pagã de sereias, centauros, cavalos alados, dragões, etc., a iconografia medieval aceita a sua presença como produtos intermédios do processo de Criação. As criaturas que aparecem com maior freqüência tanto nas pinturas como nas esculturas são as quatro relacionadas com os tetramorfos, ou seja, o leão, a águia, o boi e o anjo.

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O número quatro está presente na arquitetura sagrada de civilizações distantes no espaço e no tempo, como os Maias, os Egípcios, os Etruscos e os Celtas. Também é inegável uma forte correlação com a Tetraktys dos pitagóricos.
Nas doutrinas herméticas as quatro criaturas acima mencionadas estavam associadas com os quatro elementos: o Boi à terra, o Anjo à água, o Leão ao fogo e a Águia ao ar.
Por outro lado, o boi, ou seja o touro privado de sua virilidade, tinha um significado especial no culto de Ísis. A presença deste material iconográfico sugere uma relação concreta entre a espiritualidade medieval exotérica e esotérica com um culto muito mais antigo: o de Mitra.

O culto de Mitra, praticado principalmente por comerciantes e por militares, era especialmente concentrado ao longo das fronteiras do Império Romano; em particular, as próximas à Germânia apresentam muitas evidências arqueológicas desta difusão. No culto desempenhavam um papel importante, além do mesmo Mitra, o Touro, o Sol, a Lua e quatro animais: a cobra, o escorpião, o cão e o corvo [7]. As cerimônias eram realizadas em mitreus, lugares subterrâneos, desprovidos de janelas, retangulares, providos de um vestíbulo e orientados ao longo do eixo leste-oeste. Nas paredes laterais havia uma fila de bancos, enquanto uma dupla fileira de colunas dividia o ambiente; também no teto era pintado um céu com as estrelas do zodíaco e os planetas.

Na Europa do norte foram encontrados vinte mitreus ao longo da fronteira germânica, nove na Gália e uma na Bélgica.
O Mitraísmo desaparece oficialmente em 380 d.C., quando o imperador Teodósio, cristianíssimo e feroz, com o Édito de Tessalônica, proíbe todas as religiões diferentes do cristianismo; no entanto, pequenos grupos de seguidores continuam secretamente a prática do culto, pelo menos até ao século V; o que acontece a seguir não está documentado.
De toda forma, após o colapso do ano 476 d.C. resiste, no norte da França, a última ilha de cultura romana chamada Reino de Soissons. Não é errado imaginar que este território tenha servido como um abrigo temporário para os guardiões das diversas formas de conhecimento iniciático que viviam na Gália, agora invadida pelos bárbaros Visigodos.

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Reino de Soissons (Wikipedia)

Muitas catedrais contêm referências explícitas ao simbolismo da alquimia. Por exemplo, na fachada de Notre Dame em Paris aparece: um atanor, uma mulher que aponta para um corvo (o estado inicial da Obra), um cavaleiro que indica um leão (elemento fixo do enxofre) e outro sufocando um dragão (elemento móvel do mercúrio).

No simbolismo alquímico a Virgem Negra representa a Terra adubada pelos raios do Sol, ou seja, a matéria bruta em seu estado primordial. O preto expressa o estágio de fermentação, putrefação e ocultação. Pelo contrário, à cor branca corresponde a iluminação e a elevação espiritual. Assim, enquanto as estátuas da Virgem são simples objetos de devoção popular, para os iniciados simbolizam o princípio cósmico de criação e regeneração da vida.
Mas de onde vêm todos esses símbolos alquímicos?
A resposta é simples. A própria palavra: “al-kīmiyya”, em árabe significa “a química”. O encontro entre a tradição alquímica árabe e a cultura européia ocorre pela primeira vez na Espanha (então dominada pelos muçulmanos) provavelmente através de Gilberto de Aurillac (futuro papa Silvestre II) pouco depois do ano mil. Não é comprovado que os construtores de catedrais pratiquem a alquimia, mas, certamente, dadas as muitas representações, devem pelo menos conhecer o seu aspecto simbólico, o seu significado mais profundo.

Querendo reforçar ainda mais o caminho iniciático apontado por vários outros elementos, os construtores também recorrem ao símbolo do labirinto (sempre unicursal) mostrando a singularidade do caminho, ou seja a necessidade de abordar um percurso de morte e ressurreição para enfim alcançar a imortalidade e a realidade absoluta. No labirinto da catedral de Chartres, o seu diâmetro é igual ao da rosácea ocidental, e a distância entre o centro da rosácea e o piso é idêntica à que existe entre o centro do labirinto e o portão ocidental.

A figura abaixo mostra o esquema do labirinto octogonal de Amiens, iniciado em 1220. Os fiéis o percorrem de joelhos e, para alcançar a meta, precisam mudar de direção 145 vezes. Certamente não é por acaso que este número seja o décimo pentagonal, ou seja, usando a notação proposta por Arturo Reghini [8], se escreve: 145 = P(5,10).
E tem mais. O peregrino, para chegar ao centro, realiza desvios totalizando 16.875°. Note-se que 16.875 = 33 x 54, relação que, envolvendo os números 3, 4 e 5, manifesta a epifania da Divindade não a nível de números lineares, mas de números poligonais: de fato P(4,3) + P(4,4) = P(4,5). Além disso, 16.875 = P(10,3) x P(4,25), isto é, o terceiro número decagonal multiplicado o 25° número quadrado. Obviamente, os construtores sabem o que fazem!

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Como no caso das grandes civilizações do mundo antigo, os arquitetos das catedrais góticas projetam suas obras a partir da proporção áurea, usada pelos pitagóricos na divisão em dez partes da circunferência. Em geral, os números que aparecem nos edifícios são 20, 21 e 22. São todos números figurados que podem ser representados da seguinte forma:

20 = F(3,4) = Do(2) ou seja, o 20, além de ser o quarto número triangular, é também o segundo número dodecaédrico e, como tal, está relacionado com o dodecaedro, símbolo platônico do Universo. Notamos que 20 = 4 + 16 = P(4,2) + P(4,4), ou seja, a soma de dois números quadrados, portanto perfeitos.

21 = P(3,6) = P(8,3), respectivamente, o sexto número triangular e o terceiro número octogonal. Ele é igual à soma dos seis primeiros números da Tetraktys pitagórica (1, 2, 3, 4, 5, 6). Vinte e um é o oitavo número da série de Fibonacci. O octógono se encontra em todas as catedrais, nas plantas do batistérios e no castelo de Frederico II a Castel del Monte. Obviamente, sendo 21 o produto resultante de 3 x 7 é considerado o número da perfeição absoluta.

22 = P(5,4) = F(6,3), quarto pentagonal e terceiro piramidal com base hexagonal é também o número de polígonos regulares que podem ser inscritos em uma circunferência (lados 3, 4, 5, 6, 8 , 9, 10, 12, 15, 18, 20, 24, 30, 36, 40, 45, 60, 72, 90, 120, 180, 360). Surpreendentemente, não só é um número palíndromo, mas o é também o seu quadrado (484). Na catedral de Amiens, 22 está relacionado com o número de graus, em longitude, respeito ao sol. Vinte e dois são as letras dos alfabetos acádio, fenício, egípcio, hebraico, árabe e aramaico. Para Valentim, o gnóstico, a geração inclui 22 Éons.

Na catedral de Chartres o número dominante é 72. Este é o valor dos ângulos da base de um triângulo isóscele tendo como base um dos lados do pentágono (triângulo de ouro), fato isso que sugere como os construtores conhecessem seja a forma do Pentalfa pitagórico que a precessão dos equinócios (o eixo da Terra se desloca de 1° a cada 72 anos). Além disso, 72 = 9 x 8 = P(4,3) x P(8,2) ou seja o terceiro número quadrado multiplicado pelo segundo número octogonal. Setenta e dois era também o número dos conspiradores que mataram Osíris, esposo de Ísis.

Observamos como cada um dos números mencionados (20, 21, 22 e 72) está relacionado com dois números pitagóricos (Díade) que se complementam, quase a querer garantir a solidez de seu caráter simbólico. Mas, ainda mais importante, é o fato que, de acordo com Platão, a Mente Criadora, o Demiurgo feitor de todas as coisas, é gerada a partir de dois círculos de raio unitário, sobrepostos, simbolizando a Díade cuja área comum tem a forma de uma bexiga de peixe (ou amêndoa).

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Traçando o segmento horizontal mediano (BC) e unindo suas extremidades com os dois vértices A e D, aparecem, dentro da “bexiga” dois triângulos equiláteros de lado um, iguais e opostos. Basicamente, eles representam simbolicamente a “Dupla Terna”, ativo e passivo, masculino e feminino. Quando sobrepostos, formam um outro símbolo bem conhecido da tradição: o hexagrama ou estrela de David.

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Ao mesmo tempo forma-se um losango (ABDC), símbolo ulterior da Mãe Terra. A amêndoa é a figura que, na iconografia medieval, muitas vezes circunda Cristo ou a Virgem Maria, mas também entre os Celtas simboliza a Deusa-Mãe por causa de sua semelhança com a barriga de uma mulher grávida e era conhecida na Índia, na Mesopotâmia e na África. Note-se, a seguir, uma bela miniatura de Cristo cercado por uma amêndoa e emoldurado pelos Tetramorfos.

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Nessas alturas seria importante descobrir por quais caminhos os grandes construtores, que migram de uma cidade para outra, chegam ao conhecimento da geometria e da aritmética pitagórica e, em particular, ao significado esotérico ligado a essas duas ciências.
Uma resposta plausível é que essas noções, além de representar o legado de uma sapiência antiga, acabam de ser “atualizadas” por iniciados italianos, herdeiros do pensamento neoplatônico, além de excelentes pedreiros.

Os Magistri Comacini, depositários não apenas de conhecimentos técnicos, mas também simbólicos, depois do ano mil se espalham pela Europa e se sabe ao certo que em 1212 já estão na Inglaterra [9]. Obviamente, para chegar na Inglaterra, eles tem que passar pela França e não se pode excluir que, aqui, alguns deles vão juntar-se aos pedreiros locais compartilhando com os novos irmãos franceses os segredos de sua Arte.
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Enquanto homens ambiciosos e violentos continuam derramando sangue na Europa e na Palestina numa vã tentativa de superar uns aos outros em nome de crenças dogmáticas e intransigentes, pessoas de paz erigem monumentos que, com os alicerces na Terra e pináculos projetadas para o Céu, representam o símbolo concreto da unidade da criação feita pelo Grande Arquiteto do Universo.

A catedral gótica, com suas esculturas, sua geometria secreta, os seus números pitagóricos e as luzes coloridas de suas rosáceas realmente contém, escondido em uma floresta de símbolos, o código necessário para decifrar a dupla mensagem que a caracteriza: por um lado, uma mensagem simples e direta, desfrutável por todas as pessoas de boa vontade, por outro lado, uma chave esotérica reservada a uns poucos iniciados.

Terminada a epopéia das grandes catedrais góticas, o fio invisível não se quebra, ao contrário se reforça e continua a sua jornada em outras terras, em outras mentes famintas de luz, em outros corações sedentos de Absoluto.

Bibliografia

[1] G. Masson. “Federico II di Svevia”. Rusconi Libri, Milano (1993)
[2] U. Eco. “Il Pendolo di Focault”. Bompiani, Milano (1988).
[3] L. Watson. “The Nature of Things: The Secret Life of Inanimate Objects”. Destiny Books, Rochester (1992).
[4] A. Cerinotti. “I Celti”. Demetra, Colognola ai Volli (1998).
[5] P. Brown. “Il Mondo Tardo Antico”. Piccola Biblioteca Einaudi, Torino (1974).
[6] A. Rocha Fadista. “A Catedral Gótica de Milão”. Maçonaria.net.(2009).
[7] D. Ulansey. “The Origins of the Mithraic Mysteries: Cosmology and Salvation in the Ancient World”. Oxford University Press, Oxford (1991).
[8] A. Reghini. “La tradizione Pitagorica Massonica”, Fratelli Melita Editori, Genova (1988).
[9] G.N. “I Maestri Comacini: Precursori Italici della Massoneria Speculativa”. Serenissima Gran Loggia del R.S.I. (2014).

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3 comentários

  1. Maravilhosa é a numerologia, cada significado, a numerologia de Pitágoras é maravilhosa, quanto as catedrais, são mesmas cheias de significados em suas obras, pinturas, vitrais, arquitetura. Escondem segredos que agora estão sendo revelados a quem está pronto para estas revelações, já que nem todos estão prontos. Amo egiptologia a gente aprende demais. Assisti alguns dias atrás no canal History, sobre os Templários, a fé, a luta para guardar a pureza do esoterismo…Aplausos mil

    Curtido por 1 pessoa

  2. Li até a referência ao Imhotep, infelizmente o meu tempo é curto para ler textos na internet, consigo melhor completar os livros de papel, mas voltarei. Esse texto é fascinante sim. Salvo engano parece que no Brasil não existe essa tradição de mistérios nas catedrais… recomendo a leitura de “A ciência misteriosa dos faraós” do padre católico e astrônomo Abade Moreux. Abraços.

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  3. Texto exuberantemente interessante! porém ( creio não ser impossível, nem torço por isto), se um cometa cair sobre a terra, que diferença isso tudo fará? Á não ser, que já esteja definido que nenhum cometa mais, pode cair sobre a Terra! Abraços.

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