JESUS CRISTO: HIPPIE OU GUERRILHEIRO?

Quem foi realmente Jesus?

Um hippie manso e propalador da paz universal ou um profeta intencionado a restaurar a liberdade de Israel?
Um cordeiro desarmado no meio dos lobos ou um “meshiha” líder da Nação assim como o foi o rei Davi?
O Cristianismo nega firmemente qualquer tipo de ação política de Jesus mas, ao mesmo tempo e de forma contraditória, lhe reconhece o título de Messias, o mais alto dos títulos entre os Hebreus: o de libertador político de Israel!
Talvez, a forma melhor para esclarecer essas dúvidas seja analisar atentamente as últimas horas de vida de Jesus não de um ponto de vista doutrinal e dogmático, mas aplicando o raciocínio e os critérios da objetividade histórica.

De acordo com a tradição, os eventos da paixão iniciam na noite de uma quinta-feira de Abril quando Jesus celebra a Páscoa judaica num Cenáculo localizado em cima do Monte Sião, em Jerusalém.
Em seguida Jesus, acompanhado por seus discípulos, desce no vale do rio Cédron e alcança o sopé do Monte das Oliveiras num lugar chamado Getsêmani onde é preso.
A terceira etapa é no palácio do sumo sacerdote Caifás, mas antes o cortejo passa pela casa de seu predecessor Anás. O processo dura a noite toda e termina quando o galo canta.

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A fortaleza Antônia

Na manhã da sexta-feira os sacerdotes levam Jesus até a Fortaleza Antônia, do outro lado da cidade, para ser julgado por Pilatos. O Prefeito romano manda Jesus até o palacete de Herodes Antipas e ele, após um breve interrogatório, o devolve a Pôncio Pilatos.
Depois de ter sido sentenciado, Jesus é conduzido até ao Gólgota onde é crucificado às nove horas da manhã. “E era a hora terceira, e o crucificaram” (Marcos 15,25).

Portanto, a partir do fim da Santa Ceia até o suplício final, transcorreram menos de doze horas, tempo breve demais para que se realizassem todos os eventos relatados nos Evangelhos canônicos. Durante esse tempo Jesus teria sofrido três diferentes processos: um no palácio do Sumo Sacerdote, um no Pretório e um no Paço de Herodes, sem contar o interrogatório na casa de Anás. Além disso, temos que levar em conta as distâncias entre os vários lugares, valores que podem ser calculados, em linha reta, utilizando um mapa da cidade de Jerusalém, assim como ela era estruturada no primeiro século. Vamos examinar em detalhe o cômputo das distâncias:

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1) do Cenáculo ao Getsêmani: 1,80 Km
2) do Getsêmani à casa de Caifás: 1,48 Km
3) de Caifás a Pilatos: 1,07 Km
4) o trajeto Pilatos – Herodes – Pilatos: 1,18 Km
5) de Pilatos ao Gólgota: 0,50 Km

Obtemos um total de, aproximadamente, 6 Km.

Mas essa é apenas a distância calculada em linha reta e não leva em consideração a tortuosidade das vielas, os desníveis de uma cidade erguida nas encostas de uma montanha e a presença de inúmeros peregrinos que, dormindo nas ruas, atrapalhavam a caminhada. A imagem seguinte mostra claramente os desníveis e os percursos acidentados.

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Ainda temos que levar em conta que Jesus estava atado, cansado e desmoralizado.
Na verdade, todo o trajeto deve ter levado um tempo bem mais longo.
Assim, usando apenas o puro raciocínio, desconsiderando mitos e ideologias, chegamos à conclusão que a narração contida nos Evangelhos não condiz com a realidade dos fatos.

Vamos agora analisar outras graves incongruências que revelam quanto os textos evangélicos foram manipulados durante os primeiros séculos. Consideramos, também, que não foram escritos pelos apóstolos, pessoas analfabetas que, quando muito, falavam o aramaico e não o grego, idioma no qual os evangelhos foram redigidos e, sucessivamente, traduzidos em latim.

Quem era Simão, o apóstolo chamado Pedro?
Teria sido ele apenas um pobre pescador ou algo a mais?
Existe um trecho, nas traduções modernas do Evangelho, onde Jesus se dirige a Pedro dessa forma: “Feliz é você, Simão, filho de Jonas!” (Mateus 16,17). No entanto, nas versões mais antigas como, por exemplo, no “O Novo Testamento” (Os Gideões Internacionais, National Publishing Company, Philadelfia, 1979), Jesus fala: “Bem-aventurado és tu, Simão Barjonas“.
Aparentemente não haveria diferença alguma entre Simão bar Jonas (Simão filho de Jonas) e Simão Barjonas, pelo menos para todos aqueles que não compreendiam o aramaico, ou seja, mais de 95% dos habitantes do Império Romano.
É todavia de extrema importância entender que, na língua falada na Palestina na época de Jesus, a palavra “barjona” significava combatente, guerrilheiro. Portanto, a interpretação correta do texto não é Simão filho de Jonas, mas Simão o guerrilheiro.

Algo de parecido ocorre em outros versículos do Evangelho. Na versão moderna lemos o seguinte: “E a André, e a Filipe, e a Bartolomeu, e a Mateus, e a Tomé, e a Tiago, filho de Alfeu, e a Tadeu, e a Simão, o Canaanita” (Marcos 3,18), mas no Novo Testamento dos Gideões está escrito: “Simão o Zelote”.
Os Zelotes eram ferrenhos inimigos de Roma e o seu programa político era a expulsão dos romanos mediante a luta armada. Não há dúvida alguma que Simão pertencia à facção dos Zelotes, fato isso confirmado tanto por Mateus (10,4) que por Lucas (6,15).
Quanto à expressão Simão o Canaanita, não quer dizer que ele era oriundo da terra de Canaã,  antiga denominação da região correspondente à área da atual da Palestina e do Líbano, pois qualquer Judeu era também um Canaanita; na verdade indica que esse apelido, aparentemente geográfico, na verdade deriva do vocábulo aramaico “qanana” e tem o mesmo significado que “barjona”, ou seja, guerrilheiro, foragido, terrorista.

 

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Uma sica, típica arma dos Zelotes

Apesar de o Cristianismo ter sempre propalado que Simão Pedro era apenas um pescador pacifista, as próprias escrituras nos mostram, sem a menor possibilidade de dúvida, que ele era um guerrilheiro anti-romano e que costumava carregar uma espada (provavelmente uma sica) e usá-la quando necessário. “Então Simão Pedro, que tinha uma espada, desembainhou-a, e feriu o servo do sumo sacerdote, cortando-lhe a orelha direita” (João 18,10).

Também Judas Tadeu, numa versão mais antiga do evangelho de Mateus é chamado Ioudas zelotes; consequentemente, deduzimos que o nome verdadeiro era Judas, enquanto Tadeu, em aramaico, era um apelido significando “valente”. Em outras palavras, Judas o guerrilheiro valente. O mesmo vale para Judas Iscariotes, sendo que em hebraico a palavra “ish sicar” significa “homem do punhal, sicário”. Até Papa Bento XVI, na sua homília de 26 de Agosto de 2012 confirmou que Judas era um zelote decepcionado com Jesus devido ele não ter se tornado um Messias político.

Na verdade, não apenas Simão, mas também Tadeu e Judas eram zelotes, conforme lemos em Marcos (3,17): “E a Tiago, filho de Zebedeu, e a João, irmão de Tiago, aos quais [Jesus] pôs o nome de Boanerges, que significa: Filhos do Trovão“. Com certeza um apelido mais adequado para guerreiros ninja do que para apóstolos mansos e não violentos! Tiago e João, filhos de Zebedeu, pedem a permissão de Jesus para atear fogo numa aldeia de Samaritanos que não os aceitou: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma como Elias também fez?” (Lucas 10,54).
Vale a pena lembrar que os habitantes da Samaria não eram tão hostis aos Romanos quanto os outros Hebreus e, por esse motivo, os zelotes os tratavam como colaboracionistas.
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Será que Jesus nada sabia da orientação patriótica de seus seguidores? Afinal ele mesmo ordenou o seguinte: “E, o que não tem espada, venda o seu vestido e compre-a” (Lucas 22,36). A exegese cristã alega que essa seria apenas uma metáfora, mas nesse caso como se explica o fato que o próprio Pedro carregava uma arma? Pedro, o mais eminente dos apóstolos, e não um simpatizante qualquer!
Não seria mais plausível que Jesus representasse um ponto de referência do jahvismo messiânico intencionado a derrubar o domínio romano na Palestina?

Objetivamente, a mensagem de Jesus, assim como ela se apresenta nos Evangelhos, não contempla o nascimento de uma nova religião, mas continua fiel à antiga fé de Abrão e de Moisés e, portanto, dirigida somente às ovelhas perdidas da casa de Israel.
O versículo: “Jesus enviou esses doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos” (Mateus 10,5) mostra claramente que os apóstolos não deviam pregar junto aos gentios (os pagãos) sendo que o ideal messiânico, cujo cunho era eminentemente étnico-religioso e político, não admitia que pudessem estar envolvidos elementos não judeus.
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Torna-se agora necessário responder a outra pergunta fundamental: por que Jesus foi crucificado?
Tenho certeza absoluta que 99,99% dos leitores, não apenas cristãos, como também adeptos de outras religiões, agnósticos e até ateus, irão responder de forma unânime:
“Jesus foi crucificado por ter blasfemado”.
Confesso que eu também, ao longo de toda a minha vida sempre tive essa convicção e nunca senti a necessidade de aprofundar o assunto de tanto que essa resposta me parecia óbvia. Mas será que está correta?
Vamos então examinar nos detalhes os acontecimentos da Semana Santa começando pelo local onde Jesus foi preso, ou seja, o Monte das Oliveiras.

Esse monte teria sido unicamente um lugar oportuno para orar, como narram os Evangelhos, ou um ponto de observação avançado para organizar um ataque de surpresa contra a fortaleza Antônia, sede do comando militar romano e residência de Pilatos?
Com efeito, o Jardim do Getsêmani, no sopé do monte, fica exatamente em frente à tal fortaleza, a cerca de 500 metros de distância, mas do outro lado do rio Cédron.
A História nos ensina que houve vários tentativos de golpe a partir do Monte das Oliveiras, seja antes de Jesus, que depois. Por exemplo, durante o reinado de Nero, outro Messias conseguiu adunar cerca de 30.000 seguidores em cima desse monte, mas acabou sendo esmagado (Flávio Josefo, Guerra Judaica II–13,5).

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Que o de Jesus e dos apóstolos não tenha sido apenas um pacífico culto noturno, mas pelo menos uma forma de recognição armada, pode ser deduzido pelo fato que já durante a Santa Ceia Cristo havia exortado os seus seguidores a procurar armas: “Disse-lhes pois: Mas agora, aquele que tiver bolsa, tome-a, como também o alforje; e, o que não tem espada, venda o seu vestido e compre-a;” (Lucas 22,36).
E não há dúvida alguma que no Monte das Oliveiras não estava armado apenas um integrante do grupo: “E um dos que ali estavam presentes, puxando uma espada, feriu o servo do sumo sacerdote, e cortou-lhe uma orelha.” (Marcos 14,47), mas vários discípulos reagiram com violência tanto que, inicialmente, conseguiram rechaçar as tropas: “Quando pois lhes disse: Sou eu, recuaram, e caíram por terra.” (João 18,6).

Outra questão de suma importância é saber quantos soldados participaram da captura de Jesus.
Os Evangelhos sinóticos tentam nos mostrar que Jesus haveria sido preso, por motivos eminentemente religiosos, pelas guardas do Templo as quais obedeciam aos chefes do Sinédrio. Tanto Mateus, como Marcos e Lucas falam numa “multidão” sem especificar e sem detalhar quem fazia parte daquela multidão.
No entanto, no quarto Evangelho, lemos o seguinte: “Tendo pois Judas recebido a coorte e oficiais dos principais sacerdotes e fariseus…” (João 18,3). Portanto, além dos oficiais enviados pelos sacerdotes, estava presente uma inteira coorte de soldados romanos.
Uma coorte era uma unidade tática legionária composta por 600 homens fortemente armados e perfeitamente treinados. Uma informação que deixa simplesmente estarrecido o leitor atento aos detalhes do texto!

 

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Coorte romana

Como é possível que nada menos que 600 militares mais um número indefinido de guardas do Templo tenham se deslocado, em plena noite, para prender o líder de uma dúzia de hippies inofensivos intentos a rezar e, ainda por cima, por um crime que nada tinha a ver com o Direito Penal romano?
Já o fato de Judas ter entregue Jesus apontando-o com um beijo levanta outra suspeita.
Os próprios Evangelhos mostram como Jesus fosse bastante popular desde que havia entrado em Jerusalém uma semana antes. Evidentemente não deveria ter sido difícil identificá-lo entre um pequeno grupo de indivíduos. Muito provavelmente os partidários de Cristo no Monte das Oliveiras eram bem mais numerosos e potencialmente perigosos, e isso justifica tanto o beijo como a presença daquela “multidão” e, acima de tudo, da coorte romana.

Nós todos, nas aulas de religião ou de catecismo, fomos ensinados que as Autoridades de Israel levaram Jesus diante de Pilatos devido os Judeus estarem proibidos de emitir sentenças de morte. Isso é só parcialmente verdadeiro, no sentido que apenas os Romanos tinham o poder de crucificar ou decapitar com a espada (jus gladii) os réus acusados de crimes políticos.
Aos Judeus restava a prerrogativa de estrangular ou apedrejar: portanto, não ocorria a permissão dos ocupantes para lapidar quem tivesse infringido as prescrições da Lei de Moisés. Até degolar com um machado era consentido: “E disse Herodes: a João [Batista] mandei eu degolar;” (Lucas 9,9).
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Provas da faculdade de emitir sentenças capitais se encontram no Novo Testamento em pelo menos duas circunstâncias. Uma é o apedrejamento de São Estêvão: “E apedrejaram Estêvão que em invocação dizia: Senhor Jesus, recebe o meu espírito.” (Atos 8,59); outra é a da mulher adúltera: “E na lei nos mandou Moisés que as tais sejam apedrejadas.” (João 8,5). Não consta que no primeiro exemplo o Sinédrio tenha pedido permissão aos Romanos e, muito menos, que no segundo o populacho tenha solicitado a permissão não digo de Pilatos, mas, pelo menos, de um simples rabino.
Exatamente igual o que ocorre nos dias de hoje nas terras onde vigora a Sharia (lei islâmica), na antiga Palestina qualquer cidadão podia apedrejar quem infringia a lei mosaica, sem ter que se preocupar com a legislação romana.
O próprio Jesus correu mais de uma vez o risco de ser linchado se não tivesse se afastado rapidamente: “E, levantando-se, o expulsaram da cidade, e o levaram até o cume do monte em que a cidade deles estava edificada, para dali o precipitarem.” (Lucas 4,29) ou “Então pegaram em pedras para lhe atirarem; mas Jesus ocultou-se, e saiu do templo, passando pelo meio deles, e assim se retirou.” (João 9,59).

Fica portanto comprovado que o crime cometido por Jesus não foi a blasfêmia, mas um ato relacionado à política. Inclusive, quando Jesus pronunciou essas palavras: “E disseram todos: Logo, és tu o Filho de Deus? E ele lhes disse: Vós dizeis que sou eu.” (Lucas 23,70), não quis dizer que era Filho de Deus no sentido literal da expressão.
Para um povo rigidamente monoteísta como os Hebreus, essa afirmação teria tido um significado histórico derivado do Antigo Testamento onde o apelido “Filho de Deus” significava também Messias, ungido, e era aplicado aos soberanos e outros líderes e foi traduzido para o grego como Christos.
De consequência, ao se declarar Filho de Deus, Jesus mostrava possuir alguma forma de investidura política, de origem divina, passível de ser interpretada como ameaça à autoridade de César que também era apelidado de Divino, Filho de Deus, Deus e Deus dos deuses, e cujos títulos eram Senhor, Redentor, Libertador e Salvador do Mundo.
Atribuir esses mesmos títulos a Jesus significava negá-los ao imperador romano.

A afirmação que Pilatos teria se acovardado diante dos populares pedindo a crucificação de Jesus, mesmo sabendo que ele era inocente, discorda totalmente com a imagem que a História nos deu do procurador romano. O rei Agripa I considerava Pilatos “homem inflexível, cruel e desapiedado”, tanto que no ano 36 d.C. o legado da Síria e futuro imperador Vitélio o destituiu e o processou sob a acusação de crueldade.
Os fatos confirmam que Pilatos foi um homem arrogante e destemido, o qual jamais teria se deixado influenciar diante de uma decisão tão importante como a crucificação de um judeu se Jesus não tivesse realmente tido atitudes anti-romanas.
Aliás, a legítima motivação da sentença fica comprovada pelo “titulum”, ou seja uma placa de madeira pregada na cruz onde estava especificado o motivo jurídico da condenação: “Este é o rei dos Judeus” (Lucas 23,38), prova indiscutível que Jesus fora condenado por um crime exclusivamente político.
Quanto à escolha entre Jesus e Barrabás, já mostramos no artigo “Quem era Barrabás?” incongruências tais que nos induzem a acreditar que Jesus e Barrabás era a mesma pessoa.
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Por outro lado por qual motivo Jesus teria sido levado ao Sinédrio no coração da noite para ser processado de uma forma que contrastava com a Lei?
Simplesmente por ter blasfemado?
Nesse caso bastava encarcerá-lo e esperar mais uns dias para realizar o processo conforme aos preceitos dos israelitas. Surpreendentemente os sumos sacerdotes emitiram uma sentença de morte imediata, desrespeitando a Lei segundo a qual deviam passar pelo menos 24 horas entre o depoimento das testemunhas e a condenação definitiva.
Por que tanta pressa? Pelo temor que o povo se levantasse em defesa de Jesus?
Isso só pode significar que o ascendente de Cristo sobre os Israelitas era bastante vigoroso e mais condizente com uma liderança política que não uma puramente religiosa e, ainda por cima, pacifista.

No entanto, levando em conta o tempo excessivamente curto, apenas doze horas, entre a Santa Ceia e a morte de Jesus temos que admitir que a parte “judaica” do processo nunca tenha ocorrido de verdade.
Em outras palavras, unicamente os Romanos prenderam, processaram e crucificaram Jesus. Obviamente quem o denunciou foram justamente os sacerdotes e os escribas, temerosos que a popularidade e o carisma de Jesus levassem parte da população a se levantar contra os dominadores.
Essa hipótese encontra respaldo nas palavras dos principais sacerdotes: “Se o deixarmos assim, todos crerão nele, e virão os romanos, e tirar-nos-ão o nosso lugar e a nação” (João 12,48). Logo, restava apenas a solução proposta por Caifás: “Nem considerais que nos convém que um homem morra pelo povo, e que não pereça toda a nação.” (João 12,50).
Essa atitude das autoridades religiosas fez com que a nação fosse temporariamente salva, pelo menos até o ano 70 d.C. quando Jerusalém foi destruída pelas tropas de Vespasiano.

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Resta esclarecer o motivo pelo qual os evangelistas alteraram a narração apresentando Jesus como um manso profeta pacifista.
Vimos que, na verdade, ele foi um veemente patriota anti-romano, cercado por apóstolos que pertenciam à facção dos guerrilheiros zelotes.
Até quando crucificado Jesus foi posto entre dois elementos que a tradição continua apelidando de “ladrões”: “E crucificaram com ele dois salteadores, um à sua direita, e outro à esquerda” (Marcos 15,27). Mas no texto grego os dois são chamados de “dio lestas”, palavra que Flávio Josefo usa para denominar os rebeldes políticos, os zelotes. Tratava-se, portanto, de dois terroristas envolvidos em atos de guerrilha anti-romana e, de consequência, crucificados por rebelião armada.

Talvez, se aparecesse pelo menos uma cópia do antiquíssimo Evangelho dos Ebionitas, escrito em aramaico, teríamos uma visão mais clara dos fatos ocorridos na Palestina de dois mil anos atrás. Infelizmente este Evangelho sumiu (ou deram sumiço) e o que restou foi a versão de Paulo de Tarso, o verdadeiro fundador do Cristianismo.
Paulo, muito mais interessado em difundir o verbo de Jesus no mundo romano de que entre os Judeus, não podia apresentar a figura de um Messias anti-romano justiçado por crimes políticos.
Foi assim que foram censurados todos os elementos que caracterizavam Jesus como patriota, criando, em seu lugar, a imagem de um profeta não-violento, pregador de um reino ultraterreno de paz e amor universal. Uma figura, essa, perfeitamente aceitável pelas outras populações do Império e pelos próprios habitantes de Roma.
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Pelo contrário, o Reino de Deus almejado por Jesus era, no seu significado original hebraico, imaginado como uma comunidade terrena dirigida pelo Messias, um descendente do rei Davi. Nessa teocracia utópica, banidas riqueza e arrogância, teriam triunfado a justiça social e o amor fraterno numa sociedade regida pela antiga fé; sociedade reservada exclusivamente aos Israelitas.

Visando edificar esse reino era necessário, antes de tudo, se livrar do domínio dos pagãos e punir com rigor os colaboracionistas, em particular os escribas e os fariseus que aceitavam os Romanos e cooperavam com eles.
A função do Messias não era apenas liberar o seu povo dos Romanos, como também reconduzi-lo às condições morais e religiosas prescritas por Javé e finalizadas à edificação de um Estado santo.
Todos os convite à não-violência, ao perdão dos inimigos, ao amor fraterno e os outros ensinamentos moralmente elevados e sublimes dos Evangelhos devem ser entendidos como dirigidos unicamente aos Judeus.
Numa época em que na Palestina o ódio contra Roma, com a excepção de poucos poderosos privilegiados, era praticamente universal, teria sido extremamente perigoso dirigir palavras de amor aos ocupantes; quem tivesse tido essa ousadia teria sido imediatamente apedrejado pelo povo ainda antes de ser estripado pelos zelotes ou pelos sicários.

Jesus revela claramente o seu projeto messiânico quando chega a ameaçar de morte violenta os seus inimigos que não o aceitam como rei: “E quanto àqueles meus inimigos que não quiseram que eu reinasse sobre eles, trazei-os aqui, e matai-os diante de mim.” (Lucas 19,27).
Esse é o verdadeiro Jesus humano, histórico e real; uma figura totalmente diferente do personagem teológico e transcendente inventado por Paulo de Tarso: um Cristo ideal, pacifista e pregador da não-violência.

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7 comentários

  1. Irretocável e esmerado texto. Como sempre, um prazer desfrutar de uma leitura tão bem contextualizada e belamente escrita e ilustrada. Parabéns! Sobre Jesus Cristo direi: Ele foi um iluminado. Um abraço e obrigada pela saborosa partilha. até…

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ler seus textos é sempre ver um raciocínio fora da caixa e um banho de cultura. Espero que esteja indo bem com seu site e que eu consiga recuperar meu imenso atraso com leituras. Sucesso para você!

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  3. Jesus era um político? [PARTE 2]

    Após os irmãos macabeus [século II a.C], dois movimentos ganharam força em Jerusalém: movimento macabeico e movimento apocalíptico.
    O movimento macabeico buscava a luta armada contra os inimigos invasores. Havia diversos grupos que comungavam da mesma ideia, um deles, por exemplo: os zelotes.
    O movimento apocalíptico, por sua vez, aguardava o fim das tensões políticas numa guerra apocalíptica, na qual os justos serão separados dos injustos.

    Jesus também pertencia ao grupo dos apocalípticos. Veja:

    “E este evangelho do Reino será pregado em todo o mundo como testemunho a todas as nações, e então virá o fim. “Assim, quando vocês virem ‘o sacrilégio terrível’, do qual falou o profeta Daniel, no lugar santo — quem lê, entenda — então, os que estiverem na Judéia fujam para os montes. Quem estiver no telhado de sua casa não desça para tirar dela coisa alguma. Quem estiver no campo não volte para pegar seu manto. Como serão terríveis aqueles dias para as grávidas e para as que estiverem amamentando! Orem para que a fuga de vocês não aconteça no inverno nem no sábado. Porque haverá então grande tribulação, como nunca houve desde o princípio do mundo até agora, nem jamais haverá. Se aqueles dias não fossem abreviados, ninguém sobreviveria; mas, por causa dos eleitos, aqueles dias serão abreviados. Se, então, alguém lhes disser: ‘Vejam, aqui está o Cristo! ’ ou: ‘Ali está ele! ’, não acreditem. Pois aparecerão falsos cristos e falsos profetas que realizarão grandes sinais e maravilhas para, se possível, enganar até os eleitos. Vejam que eu os avisei antecipadamente. “Assim, se alguém lhes disser: ‘Ele está lá, no deserto! ’, não saiam; ou: ‘Ali está ele, dentro da casa! ’, não acreditem. Porque assim como o relâmpago sai do Oriente e se mostra no Ocidente, assim será a vinda do Filho do homem. Onde houver um cadáver, aí se ajuntarão os abutres. “Imediatamente após a tribulação daqueles dias ‘o sol escurecerá, e a lua não dará a sua luz; as estrelas cairão do céu, e os poderes celestes serão abalados’. “Então aparecerá no céu o sinal do Filho do homem, e todas as nações da terra se lamentarão e verão o Filho do homem vindo nas nuvens do céu com poder e grande glória. E ele enviará os seus anjos com grande som de trombeta, e estes reunirão os seus eleitos dos quatro ventos, de uma a outra extremidade dos céus.” (cf. Mateus 24:14-31).

    Logo após a prisão, morte e ressurreição de Jesus, os discípulos estavam reunidos em Jerusalém. O texto bíblico diz em Atos dos Apóstolos, cap. 2, versículos 44 e 45, que os discípulos “tinham tudo em comum e vendiam suas propriedades e distribuíam a cada um conforme a sua necessidade”.

    Qual é a principal característica de um movimento apocalíptico?

    A apocalíptica é a forma religiosa de abandono do mundo. Ou seja, tudo indica que os discípulos estavam já aguardando Jesus Cristo naquele tempo.

    Segundo Peter Sloterdijk (2012, p. 128), os apocalípticos judeus tinham a sensação incômoda de viver neste mundo:

    “O sentimento vital dos apocalípticos é dominado pela febre da expectativa próxima e pela insônia alegre daqueles que sonham a aniquilação para o mundo e a salvação para si mesmo.”

    O dia e a hora ainda estão velados e o cristianismo até hoje aguarda a “segunda vinda” de Cristo. O juízo final para os justos e injustos. Então, caríssimo amigo, Jesus não era um político que buscava a luta armada.

    Referências Bibliográficas
    SLOTERDIJK, Peter. Ira e tempo: ensaio político-psicológico. São Paulo: Estação Liberdade, 2012.

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    1. Prezado Eduardo: a sua análise se fundamenta sobre a interpretação das palavras contidas nos Evangelhos. Entretanto, sabemos que esses textos foram bastante alterados e modificados durante os primeiros três séculos da nossa era. A função era de transformar uma figura político-religiosa favorável ao renascimento do estado de Israel, com outra de hippie pacifista tal que pudesse ser aceita pelos Romanos. Nesse sentido o verdadeiro fundador do cristianismo não foi Jesus, mas Paulo de Tarso. A operação de transformação de Cristo num defensor da paz universal deu certo e essa religião conquistou o Império.

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      1. Não, minha análise se fundamenta na história dos diversos grupos religiosos de Israel. Nas mudanças de postura e pensamento no interior da religião judaica. O movimento apocalíptico, por exemplo, tem uma postura diferente dos macabeicos (grupos que buscavam a luta armada).

        Um agitador político com “sangue nos olhos” contra o Império Romano chamaria um cobrador de impostos para o seu grupo? Um agitador político comeria na casa de Zaqueu? Ora, os cobradores de impostos trabalhavam para o Império Romano (invasores).

        Veja o que você respondeu:

        “Entretanto, sabemos que esses textos foram bastante alterados e modificados durante os primeiros três séculos da nossa era.”

        Quais os textos do Novo Testamento foram alterados? Vamos lá! Diga-me. Enumere-os.

        Até concordo que muitas partes foram alteradas; porém, não concordo que TUDO foi alterado.

        E mais, a Bíblia é um clássico da literatura mundial, ao lado de outros livros como a Ilíada e Odisseia; porém, estes livros, sem exceção, receberam alterações. Os escribas (judeus) ou rapsodos (gregos) por mais habilidosos não conseguiram transmitir com fidelidade os textos.

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      2. É evidente que os Evangelhos contam uma história verídica, a da pregação de um líder político-religioso que acabou sendo justiçado pelos Romanos. Por outro lado esses textos foram escritos cerca de cem anos após a morte de Jesus e não são crónicas escritas na hora. A maipulação em sentido teológico é evidente, como mostrei nesse e em outros textos (veja, por exemplo, o sobre Barrabas). Inclusive os Evangelhos apócrifos narram uma história bastante diferente, mas foram descartados por motivos ideológicos. Tudo o que nos foi tramandado não tem respaldo objetivo e independente; a Igreja sempre obrigou os fiéis a aceitar de forma acrítica o que era funcional ao seu poder.

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