A FANTÁSTICA VIAGEM DE ULISSES

A Odisséia, além de ser, com sua trama moderna e não-linear, provavelmente o maior poema épico da história da humanidade, representa também o arquétipo de outras viagens exteriores e, principalmente, interiores onde o protagonista necessita enfrentar e superar provas para, enfim, alcançar um estado superior de consciência e se tornar um verdadeiro Iniciado.

Nesse sentido existe uma forte semelhança entre o percurso iniciático do maçom e as aventuras de Ulisses e essa semelhança será aqui mostrada evidenciando as provas que o herói homérico teve que enfrentar a partir do momento em que seus doze navios deixaram o que restava da cidade de Tróia, reduzida agora a um amontoado de escombros fumegantes.
Lembramos ao leitor que Ulisses é o nome em latim do grego Odisseu, portanto, doravante, usaremos ambos os nomes.

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PRIMEIRA PROVA – A cobiça

A primeira etapa da viagem de retorno é o reino dos Cícones, ex aliados dos Troianos. Aqui, os homens de Ulisses, ainda não satisfeitos com os ricos despojos de Tróia, saqueiam a capital Ismara e raptam mulheres, mas são surpreendidos pela reação dos habitantes que, no intento de defender a sua pátria, contra-atacam e matam seis tripulantes por cada navio. Nessa circunstância, Odisseu invade a casa do sacerdote Maron, mas não faz mal ao velho que, por gratidão, o presenteia com um vinho muito forte com o qual, em seguida, Ulisses embriagará Polifemo.
A lição é a seguinte: a arrogância acarreta morte e a solidão. Após a partida, a frota é desviada do curso por nove dias, por causa de uma tempestade violenta.

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SEGUNDA PROVA – O esquecimento

Superada a tempestade, Odisseu e os seus companheiros desembarcam na ilha dos Lotófagos. Três marinheiros são enviados à terra e, acolhidos em paz pelos habitantes, começam a imitar o costume dos nativos, ou seja a comer um pó obtido do fruto do lótus. Como resultado eles se esquecem de suas famílias e de seus companheiros. Ulisses, preocupado pela demora, vai pessoalmente verificar a situação e consegue levar os três homens para o navio, amarrados aos seus assentos para que não voltem à ilha.
Embora a amnésia provocada pelo lótus possa agir positivamente apagando as mágoas do passado e possibilitando assim o recomeço de uma vida futura, nesse caso o efeito seria extremamente negativo, pois os tripulantes iriam esquecer suas esposas, seus filhos e seus deveres para com a pátria.

Lotophagoi

 

TERCEIRA PROVA – A soberbia

Movidos tanto pela necessidade como pela curiosidade, Odisseu e os seus companheiros entram no antro de Polifemo(*) mesmo sabendo que se trata da morada de um ciclope. Quando o gigante de um olho só regressa com o seu rebanho, Ulisses pede hospitalidade em nome de Zeus, mas o monstro responde que os ciclopes não temem os deuses e, logo, devora dois companheiros de Odisseu violando assim a lei da hospitalidade. Em seguida mais quatro marinheiros são mortos e devorados. Ulisses vinga a morte dos companheiros embriagando, cegando o ciclope e saindo indene do antro mediante um ardil. Com efeito, quando Polifemo pergunta o nome de Ulisses, ele responde: “O meu nome é Ninguém”; assim, quando o ciclope ferido pede ajuda a seus camaradas e eles perguntam o que está acontecendo, ele responde: “Socorro, Ninguém me cegou, Ninguém quer me matar” e eles vão embora chateados pensando que se trate de uma moléstia enviada pelos deuses.
Odisseu já está a salvo em seu navio, mas, por pura soberbia não resiste à tentação de zombar e de revelar o seu nome verdadeiro a Polifemo, que, sendo filho do deus do mar Poseidon, se ajoelha implorando vingança ao pai que o atende atormentando Odisseu durante o resto da viagem. (*) Cenas da produção RAI.

polifemo

 

QUARTA PROVA – A prova do ar

Em seguida, após nove dias de navegação, Ulisses e seus homens são recebidos por Éolo, deus dos ventos. Odisseu mente sobre a ofensa feita a Poseidon e, antes de partir, é presenteado com um saco de couro contendo todos os ventos que deveriam lhe garantir a viagem de volta. Todavia, quando já estão próximos da pátria Ítaca, os marinheiros, pensando que o saco esconda ouro, o abrem de maneira tola enquanto Odisseu, vencido pelo cansaço, dorme. Repentinamente todos os ventos voam para fora do saco, e a tempestade resultante afasta novamente os navios da ilha que já aparece no horizonte.
A moral dessa prova é que a mentira só aparentemente resolve os problemas; também mostra que, quem deseja realmente alcançar a meta, deve esquecer os bens materiais.

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QUINTA PROVA – A imprudência

Seis dias depois, a frota chega agora na terra dos Lestrigões, gigantes antropófagos e agressivos. Seria portanto oportuno não desembarcar, mas todos os navios, com a exceção do de Ulisses, aportam na esperança de lograr algo de valioso. Como era de se esperar, eles são atacados pelos nativos que matam todos os tripulantes e afundam onze navios. Somente Odisseu consegue escapar daquela terra inóspita, ficando ainda mais sozinho.

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SEXTA PROVA – A prova da terra

O único navio que sobra chega à terra da deusa-bruxa Circe que transforma metade dos marinheiros em porcos, após alimentá-los com vinho e queijo. Felizmente Ulisses, alertado pelo deus Hermes (Mercúrio), resiste à bruxa que se apaixona por ele e devolve a seus homens a forma humana. Ao lado de Circe Ulisses experimenta o seu lado feminino concedendo-se a ela (que expressa o seu lado masculino) durante um ano inteiro ignorando a vontade dos companheiros de retornar a Ítaca. Circe, satisfeito o seu desejo carnal, torna-se generosa e feminina revelando a Odisseu a magia necessária para acessar ao Hades, a terra dos mortos. Guiado pelas instruções de Circe, Odisseu cruza o oceano a atinge um porto na beira ocidental do mundo, onde ele faz sacrifícios aos mortos, desce ao Ínfero e invoca o espírito do velho profeta Tirésias para aconselhá-lo, e o adivinho revela-lhe o seu futuro. Ao retornar à ilha de Circe, é orientado por ela sobre as etapas restantes de sua jornada.
O significado simbólico dessa prova é uma iniciação parcial de Ulisses que, conhecendo agora o futuro, alcança uma condição que o coloca acima dos outros seres mortais.

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SÉTIMA PROVA – A prova da água

Antes de tudo Ulisses e seus homens se deparam com as Sereias que não são criaturas metade mulher e metade peixe, mas seres metade pássaro e metade ser humano cujas melodias só podem ser comparadas à linguagem dos pássaros ou seja, à língua dos anjos. O canto das Sereias provoca o afundamento dos navios, mas a morte é simbólica: morre quem não está preparado, quem se atreve a enfrentar um nível de conhecimento superior para o qual não está ainda pronto. Ulisses supera a prova graças às sugestões dadas por Circe. Em seguida navega entre Cila, um monstro de muitas cabeças que rapta seis marinheiros e o redemoinho Caríbdis.

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OITAVA PROVA – A fraqueza

Após terem chegado à Sicília, os homens de Odisseu, famintos e descrentes, ignorando os avisos de Tirésias e Circe, abatem o gado sagrado do deus-sol, Apolo; este sacrilégio lhes traz como punição um naufrágio, onde todos morrem afogados, com a exceção de Odisseu que, em vez de tocar nas carnes, havia se afastado do grupo para rezar. Ulisses está agora sozinho consigo mesmo e, sozinho, recupera a sua parte ativa masculina que havia abandonado quando estava com Circe. Ele prossegue no caminho para o retorno que não conhece e não vê.

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NONA PROVA – A imortalidade

Empurrado pelos ventos e pelas correntes marinhas, nove dias depois Ulisses chega à ilha de Ogígia onde a bela e imortal ninfa Calipso se apaixona por ele e oferece ao herói a imortalidade em troca da sua pessoa física. Durante sete anos Odisseu resiste às súplicas de Calipso reconstituindo assim a sua virilidade física e espiritual. Ele não tem condições de entender o que significa a imortalidade e tanto insiste para partir que, enfim, o próprio Zeus se enternece e manda o seu mensageiro Mercúrio na ilha de Ogígia. Aqui ele ordena a Calipso libertar o seu hóspede e prover-lo de mantimentos. Ulisses parte a bordo de uma jangada construída em cinco dias com a ajuda da ninfa.

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DÉCIMA PROVA – A humildade

Poseidon, ainda rancoroso, levanta as ondas do mar e acaba destruindo a jangada de Odisseu. Ele chega quase nu na ilha dos Feácios e a bela Nausícaa, filha do rei Alcínoo, o socorre lhe e diz como se comportar na presença dos pais. Dessa vez Ulisses se apresenta como um simples náufrago, sem fingimentos e disfarces. Ele sabe, mesmo sem perceber, que a glória, riqueza e amor carnal são uma forma sutil de escravidão. Afinal das contas Odisseu tem pena de si mesmo.
Durante o jantar, ao ouvir um cantor que narra as façanhas dos Gregos em Troia, é tomado pela emoção, cai em lágrimas, revela a sua identidade e resolve contar toda a sua história para os convidados. Narra suas peripécias aos espectadores, mas, acima de tudo, revela-se a si mesmo. Embora reconhecido como rei de Ítaca, ele permanece Odisseu, um náufrago necessitando de ajuda para voltar à sua ilha. Esta sua atitude humilde e sincera convence o rei Alcínoo a oferecer-lhe um navio, embora consciente de que o deus Poseidon ainda está irado contra o homem que lhe cegou o filho Polifemo. Ulisses não mente, como fez com o deus Éolo e está pronto para o próximo teste, o regresso à casa e terra natal, onde ele é o rei.

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DÉCIMA PRIMEIRA PROVA – A prova do fogo

Chegando a Itaca, Ulisses reconhece que dessa vez não haverá possibilidade de retirada. Está sozinho, sem nada saber do ocorrido durante sua ausência de vinte anos. Não sabe com quem contar, assim fundamenta sua estratégia em suas melhores qualidades: astúcia e prudência.
Ele despe os preciosos metais e as roupas elegantes recebidas de Alcinoo e, ajudado pela deusa Atena, veste trapos, disfarçando-se de mendigo. Sabe que ainda sofrerá humilhações a que não poderá revidar sem revelar sua verdadeira identidade. Com circunspecção vai à casa do pastor de porcos Eumeu. Constatando a devoção que esse criado ainda lhe dedica, faz-lhe revelações, sem no entanto dizer que é Ulisses.
Com a chegada de seu filho Telêmaco, Odisseu revela-se e os três passam a traçar um plano de ação. Telêmaco dirige-se à casa acompanhado de Eumeu e econtram o pastor Filoteu que se junta ao grupo. Odisseu os segue e, disfarçado em mendigo, vai esmolar junto aos pretendentes à mão de Penélope, com o fim de avaliar o potencial deles. Ao encontar Penélope testa suas intenções contando-lhe uma história inventada. Penélope convence seus pretendentes a participarem de uma competição de arco-e-flecha, na qual será utilizado o arco de Odisseu, que participa por último. Por ser ele o único que tem a força para dobrar o arco, vence a competição, passando a disparar flechas, matando todos os pretendentes.
Os parentes dos competidores mortos se armam para vingar o assassinio de seus familiares e quase acontece um novo combate cruento. A deusa Atena intervém pessoalmente, provocando o olvido e semeando paz entre os dois grupos.

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DÉCIMA SEGUNDA PROVA – A consciência

Conforme profetizado por Tirésias, Ulisses volta ao mar em busca de uma terra onde os homens desconhecem o mar, comem sem sal e nunca viram um navio. Aí ele planta um remo no chão e faz um sacrifício em honra de Poseidon. Enfim retorna a Ítaca onde, como disse Tirésias, “Morte virá do mar, muito doce para te tirar a vida, vencido”.
Ulisses ainda não aprendeu tudo.
Ele ainda precisa encontrar, dentro de si, aquela dimensão onde não existem viagens, nem necessidades imediatas, nem conhecimentos a serem adquiridos: só então ele se tornará um Iniciado.
Ulisses vai entender que a verdadeira liberação é a consciência, ou seja uma posição equidistante entre a vida e a morte, entre o prazer e as mágoas, entre o amor e o ódio

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Em 1968 a emissora televisiva italiana RAI produziu uma minissérie de oito capítulos onde  Ulisses e Penélope foram interpretados respectivamente por Bekim FehmiuIrene Papas. Esta produção ainda é considerada a melhor versão cinematográfica da Odisséia,  e os screenshots que aparecem nesse artigo se referem ao filme da RAI.

O filme completo, em francês, clicando aqui.

 

 

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