DESVENDANDO O CALENDÁRIO MAIA

A civilização dos Maias, povo mesoamericano estabelecido entre as florestas da Guatemala e do Belize, das serras do Chiapas até a península mexicana do Yukatan, pode ser dividida em três períodos:

• O Período Pré-clássico (1800 a.C. – 250 d.C.);
• O Período Clássico (250 d.C. – 987 d.C.);
• O Período Pos-clássico (987 d.C. – 1530 d.C.).

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Muitos documentos dos nativos meso-americanos foram destruídos no período da ocupação espanhola, mas alguns preciosos manuscritos e algumas relíquias foram salvos da destruição, escondidos pelos indígenas ou enviados à Europa para presentear o rei da Espanha. O mais importante destes manuscritos foi o Código Dresden.

Este estranho livro, escrito em  hieróglifos desconhecidos, foi decodificado em 1880 na Alemanha. Por um extraordinário processo investigativo, foi quebrado o código, tornando-se possível aos pesquisadores e exploradores traduzir muitas inscrições encontradas nas ruínas e antigos artefatos maias.

Os Maias, com a exceção do ouro usado na fabricação de joias, quase não utilizavam  outros metais, fato que os tornou extremamente vulneráveis aos ataques dos conquistadores espanhóis.
No entanto, apesar de ser basicamente uma civilização neolítica, desenvolveram conhecimentos astronômicos surpreendentes, chegando a elaborar um calendário complexo e extremamente preciso, cuja unidade fundamental era o dia (Kin).

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A cronologia dos Maias era calculada a partir de um momento fixo do passado, assim como o os cristãos partiam do nascimento de Jesus, os Gregos dos primeiros jogos olímpicos e os Romanos da fundação de Roma.
A partir dos primeiros séculos da nossa era, os astrônomos Maia chegaram a prever os eclipses com grande exatidão e estabeleceram cuidadosamente o curso de Vênus.

Para medir tempos curtos foram utilizados dois calendários diferentes: o ciclo Tzolkin, religioso de 260 dias e o ciclo Haab, civil de 360 dias.

O CICLO TZOLKIN (ou Conta do Destino)

É uma conta especial de probabilidades envolvendo o destino dos seres humanos; cada glifo e cada numeral têm determinadas características que, ao combinar-se, proporcionam a cada dia uma carga única de qualidades.

Para entender o funcionamento desses dois calendários, que trabalhavam em conjunto, vamos imaginar uma engrenagem composta por treze dentes, sete dias mais seis noites, representando os treze planos ou vibrações superiores cósmicas. Efetivamente esses dias (mostrados na engrenagem menor) não possuem nomes próprios, mas servem para incrementar de uma unidade uma segunda engrenagem formada por vinte dias (cada um simbolizado por um glifo da natureza) cujos nomes são: Imix, Ik, Akbal, Kan, Chicchan, Cimi, Manik, Lamat, Muluc, Oc, Chuen, Eb, Ben, Ix, Men, Cib, Caban, Etznab,  Caunac e Ahau.

 

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Se, por exemplo, o sistema começa a contagem em 1 Imix  (como na figura), a sequência resultante vai ser: 1 Imix, 2 Ik, 3 Akbal, 4 Kan, 5 Chicchan, etc. Quando se chega a 13 Ben, o número associado ao dia recomeça de 1 e a sequência continua com  1 Ix, 2 Men, 3 Cib, 4 Caban, 5 Etznab, 6 Caunac, 7 Ahau completando assim, pela primeira vez, a série de 20 dias. Em seguida vai ser de novo Imix, mas dessa vez precedido pelo número 2, ou seja, 2 Imix, e assim por diante.

Destarte, os dias desse ano sagrado nunca repetem o mesmo nome, como ao em vez acontece com o nosso calendário.

É simples observar que a sequência numérica dos dias é sempre a mesma: 1, 8, 2, 9, 3, 10, 4, 11, 5, 12, 6, 13, 7 e os dias com o mesmo nome e o mesmo número se apresentam somente após um inteiro ciclo Tzolkin, ou seja, após 260 dias, sendo 260 o mínimo múltiplo comum entre 13 e 20.

Uma recente teoria explica que os Maias teriam escolhido esse ciclo devido o Sol, a uma latitude de cerca de 15ºN (sudeste de Chiapas, México), passar pelo zênite duas vezes por ano, com intervalos de 260 dias entre as duas passagens.

Os vinte glifos dos dias e os treze números vão unindo suas particularidades, combinando-se entre si, e cada um deles compartilha suas características com os seres que chegam ao mundo e recebem sua influência no momento do nascimento.

O CICLO HAAB

O ciclo Haab, com uma duração de 360 + 5 dias, era um calendário civil ligado ao ciclo das estações e tinha funções práticas. Era composto por 18 meses de 20 dias e funcionava em conjunto com o ciclo Tzolkin, como mostrado na figura em baixo.

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Os meses tinham nomes relacionados a eventos meteorológicos (Pop, Uo, Zip, Zotz, Tzec, Xul, Yaxkin, Mol, Chen, Yax, Zac, Ceh, Mac, Kankin, Muan, Pax, Kayab, Cumku) e eram numerados de 0 a 19, demonstrando assim que os Maias já haviam descoberto o zero independentemente e antes dos matemáticos da Índia.

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A esses 360 dias eram acrescentados mais cinco dias especiais (Wayeb) considerados negativos. Durante o Wayeb, os portais entre o reino mortal e o submundo se dissolviam. Nenhum limite impedia que as deidades mal-intencionadas causassem desastres. Para afastar os maus espíritos, os Maias tinham costumes e rituais oportunos a serem praticados durante esse período. Por exemplo, as pessoas evitavam sair de casa e lavar ou pentear os cabelos.
É interessante notar que também os Antigos Romanos, no final de cada ano, celebravam as Saturnálias: eles acreditavam que as divindades dos ínferos, saídas das profundezas do solo, vagassem em cortejo por todo o período invernal, isto é, quando a terra repousava e era inculta por causa das condições atmosféricas.

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Assim como as datas entre o ciclo da trezena e o da vintena voltam a corresponder após um ciclo de 260 dias, analogamente as do ciclo Tzolkin e as di ciclo Haab se repetem após 52 ciclos Haab (73 ciclos Tzolkin) de 18.980 dias, sendo esse número o mínimo múltiplo comum entre 260 e 365.
O referido valor corresponde exatamente a 52 anos solares; no entanto os Maias nunca chegaram a numerar os anos, sendo a combinação de uma data Tzolkin com uma data Haab suficiente para identificar uma determinada época, pois a maior parte das pessoas tinha uma expectativa de vida não muito superior a 52 anos.
Esse sistema pode parecer complicado a quem não está acostumado, mas para os Maias era muito familiar e é ainda usado pelas populações rurais da moderna Mesoamérica.

O mês de vinte dias era mais adequado à cultura Maia, já que a sua matemática usava a numeração na base vinte, que corresponde à soma dos dedos das mãos e dos pés.
Não é por outra razão que a cada Katun (período de 20 anos), data auspiciosa como nossa década, os Maias erigiam uma estela, monumento lítico belissimamente decorado, no qual registravam as datas e principais eventos, que poderiam ser interpretados no futuro. Como qualquer outra civilização antiga, os Maias sacralizavam os conhecimentos de astronomia, matemática e escrita, cabendo esta função aos sacerdotes e letrados cujos registros se cristalizaram no sistema dos calendários.

A CONTAGEM LONGA

Como as datas da roda calendárica só podem distinguir 18.980 dias, os sacerdotes inventaram um método mais refinado para registrar a história de forma mais adequada. Destarte, para manter datas sobre períodos mais longos que 52 anos, foi ideado o calendário da Contagem Longa.

Trata-se de um sistema de numeração progressiva misto em base 13, 18 e 20 composto por cinco algarismos, os seja: aa.bb.cc.dd.ee respectivamente com bases 20, 18, 20, 20 e 13. Os números em base 13 vão de 1 a 13; os em base 18 vão de 0 a 17 e os em base 20 vão de 0 a 19.
Por exemplo, o dia 1 se escreve 0.0.0.0.1; o dia 25 se escreve: 0.0.0.1.5 (20 + 5); o dia 360 se escreve 0.0.1.0.0 (20 x 13), etc.
É evidente que o número máximo de dias representável mediante esse sistema é 20 x 18 x 20 x 20 x 13 = 1.872.000 dias (cerca de 5.125 anos solares).

O dia 25 de dezembro do ano zero (data em que supostamente teria nascido Jesus) seria: 7.17.18.12.16 na Contagem Longa e, respectivamente, 4 Cib 4 Mol nos Ciclos Tzolkin e Haab.
Embora possa ser uma simples coincidência, observamos que a soma dos dois 4 (relativos a Cib e Mol) produz o número oito o qual, durante a Idade Média, era associado à Virgem Maria, tanto que todos os batistérios possuem planta octogonal.
Quanto aos números da Contagem Longa, sua soma produz exatamente o número 70, ou seja 10 vezes 7 e, como se sabe, o número sete, e não apenas na Bíblia, simboliza a perfeição divina.

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Os Maias acreditavam que a cada 5.125,4 anos ocorria um novo “ciclo”: esse intervalo temporal corresponde exatamente a um quarto do tempo necessário para a precessão dos equinócios.
Como na mitologia Maia um Ciclo Longo representa uma era do mundo e, considerando que para eles a era precedente a atual iniciou no dia 11 de agosto 3.114 a.C., uma nova era já começou a partir do dia 21 dezembro 2.012.
Essa data, felizmente, não anunciou o Apocalipse, como muitos pensavam, apenas significou que o mundo passou por uma mudança positiva, precedida por eventos significativos.

A razão pela qual os antigos Maias escolheram essa forma de medir o tempo deve-se a duas razões principais. Antes de tudo, a precisão extrema.
Sabemos que o Calendário Gregoriano mede o tempo em anos cuja duração é ligeiramente diferente (cerca de 0,3 dias a cada mil anos) do ano trópico. Além disso, temos meses cujo comprimento pode ser de 28, 30 ou 31 dias e ainda assim precisamos acrescentar anos bissextos.
O segundo motivo é que, enumerando os dias e não os anos, o sistema se torna bem mais elegante, sem contar que, dessa forma, para os Maias ficava bem fácil estabelecer em qual data era a posição de um determinado astro no firmamento. Isso pelo fato de lidar com apenas uma variável (o número de dias), sem precisar transformar em meses, semanas ou anos.

Os Maias,  para completar sua compreensão da passagem do tempo, também se baseavam em dados lunares e no ciclo de Vênus, com 584 dias (o duplo ciclo de 52 anos coincide exatamente com as 65 revoluções sinódicas de Vênus: 37.960 dias).

Mas foi com a Contagem Longa que eles conseguiram datar seus monumentos, estelas e pirâmides: é o que permite aos modernos arqueólogos de resgatar um pouco da história deste povo.
Quando essa antiga civilização se confrontou com os conquistadores espanhóis, o sistema de calendários dos Maias já era estável e preciso, notavelmente superior ao Calendário Gregoriano, o qual teve que ser reformado várias vezes.

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NOTA: Para converter uma data qualquer do nosso calendário numa data da Contagem Longa, inserir os dados no banner apresentado clicando aqui.

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