VOCÊ SABIA QUE OS ANTIGOS ROMANOS…

Tanto inúmeros filmes de Hollywood como livros, revistas e peças teatrais, costumam mostrar uma imagem bastante estereotipada dos Antigos Romanos e de seus costumes.
O objetivo desse artigo é desvendar alguns dos mitos criados pela industria cinematográfica e mostrar ao leitor aspectos verdadeiros desse mundo que ainda tanto nos fascina.
Longe de ser exaustivo, irá apenas esclarecer uns dos erros mais comuns a respeito da sociedade romana.

 

ALIMENTOS

Os Romanos comiam principalmente pão (alimento básico), peixe, carne e queijo. A massa e a pizza ainda não haviam sido inventadas. Também desconheciam o milho, as batatas, o feijão e os tomates, introduzidos na Europa só depois do descobrimento da América. Apreciavam as favas, os aspargos e as frutas.
Um ingrediente fundamental da culinária romana era o garum, um condimento a base de vísceras e de outras partes selecionadas do atum ou da cavala misturadas com peixes pequenos, crustáceos e moluscos esmagados; tudo isto era deixado em salmoura e ao sol durante cerca de dois meses; o sabor devia ser algo de parecido ao moderno molho de enchovas.
O vinho era mais concentrado e áspero que o atual e de regra era diluído com bastante água. Ainda desconhecidos eram o café  e o açúcar. Para adoçar os alimentos usava-se mel de abelhas.

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Produção de garum

ESTÁTUAS

Estamos acostumados a ver as estátuas romanas (e gregas) completamente brancas e sem pupilas. Na verdade elas eram coloridas assim como os eram os prédios, as colunas, os templos e os vestidos. Também as paredes das casas eram pintadas com tintas brilhantes e chamativas. Havia poucos móveis mas, em compensação, os afrescos eram abundantes, pelo menos nas casas dos mais abastados.

Porträt des römischen Kaisers Caligula

GLADIADORES

A maioria eram escravos, mas não faltavam pessoas livres que se dedicavam a essa “profissão”. Os melhores eram famosos e extremamente ricos. Todos os jogos realizados tanto em Roma como nas outras cidades do império tinham um patrocinador, de regra um político a caça de popularidade e de votos, outras vezes era o próprio imperador. Quando um gladiador era derrotado, estendia o braço em direção do patrocinador mostrando a mão direita aberta e com os dedos bem esticados; o significado desse gesto era o seguinte: “olha, fui vencido, a minha vida não vale nada”. Se o patrocinador fechava o punho em volta do polegar, o derrotado era perdoado, caso respondesse mostrando a mão aberta, o gladiador devia se suicidar recebendo, obviamente, uma “ajudazinha” pelo seu oponente. A história do polegar levantado ou abaixado é invenção de Hollywood e não corresponde à verdade.

Na verdade, os Romanos preferiam assistir às corridas das bigas no Circo Máximo. A prova é que nesse imenso estádio cabiam até 380.000 espectadores, enquanto que no Coliseu havia “apenas” 70.000 vagas.

gladiators

ARTE

Quem pensa que os Romanos gostassem apenas de assistir lutas entre gladiadores, se engana redondamente. Na verdade apreciavam bastante as peças teatrais e, na Roma Antiga, surgiam teatros famosos, como o de Marcelo. Mas eles adoravam também a arte antiga, em particular as obras de grandes artistas gregos como Lísipo, Praxiteles, Policleto, Míron, Apeles e outros. Suas pinturas e esculturas eram expostas nos templos e nos foros para que todos pudessem admirá-las. Inúmeros obeliscos foram trazidos do Egito e erguidos nas praças mais importantes da cidade. Não faltavam museus históricos, arqueológicos e até naturalísticos; num deles estava conservado um imenso cristal pesando nada menos que 45 quilos.

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Retrato de moça –  El Fayum (150 d.C.)

 GESTOS

Um gesto chulo, muito comum nos dias de hoje, ou seja mostrar o dedo médio levantado como forma de escárnio, não foi invenção dos Americanos, mas nasceu na Antiga Roma.
Enquanto os modernos, usando os dedos das mãos podem representar os números de um a dez, os Romanos sabiam chegar até 10.000. Infelizmente esse código não chegou até nós.

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ORGIAS

Fomos acostumados a imaginar a sociedade romana como imoral e depravada, mas poucos sabem que aquele povo era bastante puritano, tanto que homens e mulheres estavam proibidos de se beijar no meio da rua. Os jantares eram apenas uma oportunidade para conhecer pessoas, criar laços de amizade ou estabelecer alianças políticas. Apenas nessas circunstâncias os convidados tomavam suas refeições deitados em sofás; normalmente as pessoas se sentavam em volta de uma mesa.

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CASAMENTO

O namorado, igual nos dias de hoje, ia na casa do futuro sogro para pedir a mão da filha. Pedir a mão não significava “segurar a mão”, mas queria dizer obter o comando sobre a mulher a qual passava da tutela do pai àquela do marido (cum manu = com a autoridade). No entanto a autoridade sobre a esposa podia continuar sendo do pai dela. A mulher sempre teve o direito de herdar dos pais, estudar e manter uma certa independência do marido.
Devido os Romanos serem bem supersticiosos, a esposa, ao entrar na casa do marido pela primeira vez, era levantada por dois amigos, para que ela não tropeçasse, fato que teria sido interpretado como infausto para a nova família; essa tradição continua ainda hoje, com a diferença que é o marido que põe a mulher no seu colo. Divorciar era facílimo. As mulheres romanas gozaram de uma liberdade desconhecida no Mundo Antigo e que foi progressivamente perdida com o advento do Cristianismo.

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CRISTIANISMO

Durante cerca de 300 anos, até o edito de Constantino (313 d.C.), basicamente os cristãos puderam professar a sua fé sem temor de serem perseguidos. As perseguições foram relativamente poucas: a de Nero (embora nenhum Padre da Igreja fale nela), de Décio e de Diocleciano. O teólogo Orígenes de Alexandria (185-253 d.C.) afirma que o número de mártires é “pequeno e fácil de ser contado”. Os primeiros cristãos celebravam seu ritos nas catacumbas não para se esconder do imperador, mas para se afastar de um mundo que eles achavam ser dominado pelo demônio. A base social dos cristãos era a classe média e uns intelectuais. Os soldados, os escravos e os comerciantes preferiam seguir o culto de Mitras. No ano 391 d. C. o imperador Teodósio proibiu definitivamente o culto pagão, chegando a perseguitar duramente quem ainda não tivesse abraçado a religião cristã. No mesmo ano o bispo Teófilo de Alexandria ordenou a destruição da famosa biblioteca e todo o saber do mundo antigo foi perdido.

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BARES

Os Romanos costumavam frequentar dois tipos de bares. Um era chamdo de Thermopolium e, como sugere a palavra, oferecia alimentos quentes (ou frios) já preparados e prontos para o consumo. Mais que um bar, era algo de parecido a um moderno fast-food.
Para tomar apenas um drink, existiam locais chamados Popina onde se comprava vinho de modesta qualidade por preços bem baixos. Quanto aos alimentos a escolha era muito limitada: azeitonas, pão e guisado. De regra os clientes, embora fosse proibido, jogavam os dados por dinheiro. Quase sempre havia à disposição uma ou mais prostitutas (as garçonetes ou até a proprietária); esse tipo de ambiente, bastante popular, era reservado às classes mais pobres e aos escravos.

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CLIMA

Os filmes mostram o Império Romano caracterizado por um clima quente e ensolarado. Na verdade o clima era bem parecido ao nosso, com invernos frios, chuva e neve. A partir do III século houve uma piora climática e os Romanos começaram a usar um indumento típico das populações barbáricas da Europa central: as calças compridas.

HIGIENE

Em todas as cidades havia termas à disposição do público. O preço da entrada era pouco mais que simbólico; destarte qualquer pessoa, inclusive os escravos, podia tomar o seu banho diariamente. Nas termas havia também bibliotecas e quadra de esporte.
Nas latrinas não se usava papel higiênico (que não existia); a limpeza era feita mediante água e esponjas descartáveis.

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HABITAÇÃO

Só os mais ricos viviam em casas. A grande maioria dos Romanos ocupava apartamentos em prédios de até seis andares, pois a lei vetava a construção de edifícios ainda mais altos.
Na térreo havia lojas e laboratórios de artesãos. O primeiro andar era ocupado por cidadãos da classe média e, a medida que se subia, os inquilinos eram progressivamente mais pobres. Não havia água encanada, banheiros ou elevadores. Quem levava a água em casa eram os escravos.
A lei proibia que o conteúdo dos penicos fosse jogado das janelas e a polícia municipal punia severamente os transgressores com multas ou chibatadas.

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ESCRAVOS

Podemos afirmar que eram os “eletrodomésticos” da época. A vida dos escravos era muito dura no campo, mas podia ser tolerável nas cidades. Frequentemente os proprietários acabavam criando laços de amizade com seus escravos e os alforriavam tornando-os libertos.
Após duas gerações a família do liberto adquiria automaticamente a cidadania romana.
Inúmeros libertos se tornaram pessoas ricas e poderosas, pois a sociedade romana era muito aberta e totalmente isenta de preconceitos raciais. Frequentemente os escravos mais importantes (professores, contadores, administradores, etc.) possuíam escravos pessoais os quais, por sua vez, podiam comprar escravos subalternos.

SEXO

A mulher romana devia chegar virgem ao casamento, mas essa regra não valia para os homens. Para as mulheres o sexo fora do casamento era formalmente proibido, mas…
Os homens podiam ter relacionamento sexual com prostitutas e escravas e até com escravos, desde que desenvolvessem um papel ativo. A homossexualidade feminina era considerada uma perversão gravíssima. De forma geral o sexo era vivido sem inibições e sem medos, sendo ele considerado uma dádiva dos deuses.

kiss

PREÇOS

O custo da vida na cidade de Roma era cerca de quatro vezes mais alto que nas outras cidades do império. Efetivamente, tendo a cidade mais de um milhão de habitantes, os alugueis eram bem altos.
No entanto, cada cidadão recebia gratuitamente uma quantidade de trigo suficiente para sustentar a sua família.
Os espetáculos eram quase de graça e o “serviço” de uma prostituta custava como um copo de vinho.
Um escravo sem algum tipo de especialização era vendido por pouco, mas um contador ou um professor de filosofia, de retórica, de gramática ou de grego custava uma fortuna.

città romana

 

FORÇAS ARMADAS

A unidade fundamental do exército romano era a legião, composta por cerca de 5.000/6.000 homens perfeitamente armados e motivados. A disciplina era férrea e o treinamento constante. O historiador Flávio Josefo afirma que, para os legionários, “os treinamentos eram batalhas incruentas e as batalhas treinamentos cruentos”. As legiões sempre combateram em condições de inferioridade numérica e só sofreram derrotas quando caíram em emboscadas, nunca em campo aberto. Qualquer pessoa que tivesse completado 17 anos (e tivesse pelo menos 1,70m de altura) podia se alistar e, após 25 anos de serviço, ao deixar o exército, obtinha uma recompensa em dinheiro e terrenos, e, caso ainda não a tivesse, recebia também a cidadania romana.
O número global de soldados foi crescendo na medida em que os bárbaros incrementaram seus ataques às fronteiras do império alcançando, na época de Constantino, as 650.000 unidades, incluindo-se também as tropas auxiliárias. Esse valor é maior que o número de militares em serviço nas Forças Armadas dos Estados Unidos, pelo menos em época de paz.

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INVENÇÕES

Muitos utensílios “modernos” foram inventados ou aperfeiçoados pelos Romanos. Por exemplo, o biquíni, as meias, o presunto, os rolamentos, as velas, as bolas de vidro para brincar, a mortadela, as salsichas, as tesouras, a calefação dos ambientes, os cartazes eleitorais, o torniquete, o concreto, os esgotos, os alisadores para cabelos, a lente simples e os cotidianos.

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TURISMO

Os Antigos Romanos viajavam? Depende. Viajavam principalmente os militares, os funcionários públicos e, obviamente, os inúmeros mercantes. No império havia uma maravilhosa rede viária: mais de 80.000 km (duas vezes a volta do planeta) de estradas excelentes, muitas das quais ainda em uso em época moderna. De regra as pessoas mais simples raramente se afastavam de suas casas e os Romanos não curtiam as praias, pois consideravam o mar um elemento perigoso onde os naufrágios ocorriam cotidianamente. No entanto, as pessoas mais cultas e ricas costumavam organizar pequenas comitivas para visitar as cidades mais ricas de história e de arte, em particular a Grécia e o Egito. Já na época existia a possibilidade de fazer cruzeiros no rio Nilo e, além da cidade cosmopolita de Alexandria, era comum visitar as pirâmides e as tumbas dos faraós. Tudo isso foi recentemente comprovado pelos arqueólogos que analisaram os grafitos deixados pelos turistas romanos: na tumba de Ramsés VI foram identificados mais de mil. No mais engraçado deles está escrito: “Mas sua mãe sabe que você está aqui?”.
Devido os Romanos se considerarem descendentes de Eneias, outra meta importante era a cidade de Troia. Naturalmente a própria Roma era meta de um constante fluxo de turistas vindos não apenas das províncias do império, como também da Pérsia, da Índia da África e da Arábia.

OS BÁRBAROS

Nos filmes de Hollywood os bárbaros são retratados como trogloditas selvagens, ignorantes e sanguinários. Na verdade, os Romanos chamavam de bárbaros todos os povos que ficavam além das fronteiras do estado, inclusive os Persas, herdeiros de uma cultura milenar. O contínuo contato entre os Romanos e os bárbaros da Europa Central  fez com que houvesse uma certa troca de hábitos entre as duas populações. Com o passar dos séculos os bárbaros aprenderam as táticas militares de seus adversários e começaram a utilizar armaduras de ferro. Contemporaneamente os Romanos passaram a adotar armas típicas dos bárbaros, como a espada que acabou substituindo o gládio. A partir do final do II século, o exercito romano foi incorporando quantidades cada vez maiores de tropas bárbaras até que, no V século, o exercito romano era composto quase exclusivamente de bárbaros.

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DECADÊNCIA E FIM

Sempre de acordo com certos cinegrafistas ou certos escritores, a decadência do Império teria sido provocada pela vida dissoluta dos Antigos Romanos, mais interessados em festas e orgias de que na defesa do estado. A verdade é bem diferente. A queda foi originada por vários fatores, entre os quais a crise demográfica, as lutas pelo poder, as mudanças climáticas e, acima de tudo, a incessante pressão dos bárbaros.
Foi necessário incrementar o número de soldados numa fase em que a produção estava regredindo; isso gerou pobreza e revoltas. A moeda sofreu inúmeras desvalorizações e deu origem a uma espiral inflacionária. Imperadores como Diocleciano tentaram reverter esse processo, mas o destino do Império já estava marcado: sem recursos para financiar tropas disciplinadas e bem treinadas, a parte ocidental do Império caiu definitivamente no ano 476 d.C.

 

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