O DOGMA DA VIRGINDADE DE MARIA

Maria, a mãe de Jesus, nunca foi objeto de culto ou de veneração junto aos Apóstolos, muito menos foi venerada por Paulo de Tarso que, em suas Epístolas (os mais antigos documentos do Novo Testamento), sem sequer mencionar o nome Maria, considerou-a uma mulher igual às outras escrevendo simplesmente que Jesus havia “nascido de uma mulher” (Gálatas 4,4). Jamais os Apóstolos ou Paulo afirmaram que a mãe de Jesus fosse virgem.

Outra incongruência emerge do episódio da Anunciação.
Nos Evangelhos lemos que o anjo Gabriel informou tanto José como Maria do nascimento de um filho de origem divina (Mateus 1,20); (Lucas 1,26). Entretanto, no momento em que Jesus começa a sua pregação, Maria parece esquecer totalmente das palavras de Gabriel e, junto com outros filhos, tenta convencer Jesus a voltar para casa: “Chegaram então seus irmãos e sua mãe; e, estando fora, mandaram-no chamar” (Marcos 3,31) achando que ele tivesse perdido o tino: “E, quando os seus viram isso, saíram para o prender; porque diziam: está fora de si” (Marcos 3,21).
Tertuliano, um dos maiores apologistas cristãos, diante de um fato tão absurdo, acusa Maria de não ter acreditado em Cristo (Tertuliano, De Carne Christi, 7). Tudo isso nos leva a cogitar que a Anunciação tenha sido um fato inventado a posteriori.
Inclusive, devido o anjo ter aparecido a Maria enquanto ela estava sozinha, como foi que Lucas pôde descrever o encontro nos mínimos detalhes? Se Maria tivesse acreditado na aparição e decorado as palavras de Gabriel, teria tido fé no filho dela, mas não foi assim.

O fato é que até o III século não apenas a virgindade de Maria era totalmente ignorada, mas todos os Padres da Igreja como, por exemplo, Ireneu e Tertuliano, estavam convencidos do casamento efetivo e real entre José e Maria.
A divinização de Jesus, iniciada por Paulo e imposta pelo imperador Constantino durante o Primeiro Concílio de Niceia (325 d.C.) determinou um conjunto de implicações doutrinais que, progressivamente, deram início ao culto mariano.
Como Jesus, divinizado como Filho de Deus, havia sido gerado por uma mulher, foi mister atribuir a essa mãe terrena uma série de atributos, se não divinos, pelo menos semidivinos.
O primeiro passo foi considerar a concepção de Cristo obra de Deus e não de um ser humano.
Isso justifica a introdução, nos Evangelhos de Lucas e Mateus, em torno do IV século, do episódio da Anunciação, evento totalmente ignorado por Marcos e João, e considerado duvidoso por São Jerônimo, eminente doutor da Igreja e tradutor em latim da Bíblia.

No intento de completar esse primeiro passo, durante o Concílio de Eféso (431 d.C.) Maria recebeu em forma oficial o apelido de Teótoco, ou seja Mãe de Deus.
Os Evangelhos afirmam repetidamente que Jesus tinha irmãos e irmãs, e Paulo confirma esse fato em suas Epístolas. No entanto, se Maria tivesse gerado outros filhos, a concepção mediante o Espírito Santo teria sido duvidosa e Jesus-Deus teria compartilhado a sua divindade com os irmãos. Obviamente, para negar essa hipótese, foi necessário proclamar a virgindade de Maria e afirmar que os irmãos de Jesus eram apenas “primos”. Foi assim que o Concílio de Latrão (649 d.C.) estabeleceu o dogma da virgindade absoluta de Maria, dogma ainda hoje defendido pela Igreja Católica e a Igreja Ortodoxa, mas rejeitado pelos Protestantes.
A imagem da Nossa Senhora foi também arrematada e aperfeiçoada utilizando toda a simbologia da deusa Isis, muito popular na parte oriental do Império e na cidade de Roma.

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Isis e a Virgem

Todavia, ainda faltava um detalhe para completar a construção da figura sobrenatural da Nossa Senhora. Tanto Tertuliano como Santo Agostinho observaram que o pecado original, cometido por Adão e Eva, havia sido transmitido sexualmente a toda a humanidade. Evidentemente também Maria teria sido infectada por essa culpa transmitindo-a, por sua vez, ao filho Jesus.
Inclusive, se Maria tivesse sido concebida sem pecado, não teria tido a necessidade de apresentar a oferta ao Templo. Mas está escrito que: “E, cumprindo-se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor” (Lucas 2,22).
Como foi resolvido o problema?
Simplesmente ignorando as palavras de Lucas e declarando que Maria fora concebida imaculada, ou seja, isenta do pecado original. Esse artifício encontrou a forte oposição de eminentes teólogos como Bernardo de Claraval, Tomás de Aquino, Boaventura, Alexandre de Hales e toda a ordem Dominicana, tanto que uns monges, por esse motivo, acabaram sendo queimados na fogueira na cidade de Berna aos 31 de Maio de 1509.
Os mencionados opositores, conforme o pensamento de Santo Agostinho, reputavam que a transmissão do pecado original ocorria unicamente mediante o ato sexual; destarte apenas Jesus teria nascido sem pecado, mas não Maria.
Mesmo assim, o papa Pio XI, em 1854, considerando si mesmo infalível e superior a teólogos como Santo Agostinho, proclamou o dogma da Imaculada Conceição.

Enfim, podia uma figura mais parecida a uma deusa do que a um ser humano, ser corrompida pela morte?
Claro que não!
Foi assim que em 1950, papa Pio XII decretou mais um dogma, o da Assunção. Destarte, a Mãe de Deus, logo que fechou os olhos, subiu ao céu entre coros de anjos antes de sofrer a decomposição da carne. Uma boa carreira para uma mulher que, de acordo com os Evangelhos, nada era se não a mãe de uma família numerosa que lhe causou não poucos sofrimentos.

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