A MENSAGEM SECRETA DE CRISTO

Leia com atenção o versículo n° 7 do Evangelho de Tomé:

“Jesus disse: Afortunado é o leão que o homem comer e o leão se torna homem; e desgraçado é o homem que o leão comer, e o homem se torna leão.”

Considere agora o versículo n° 10 do Evangelho de Felipe:

“A luz e as trevas, a vida e a morte, as coisas da direita e aquelas da esquerda, elas são irmãs entre si. Não é possível que se separem. Por isso, nem os bons são bons nem os maus são maus; nem a vida é vida nem a morte é morte. Por isso, cada coisa se determinará em seu princípio, no início. Aqueles que estão elevados por sobre o mundo são indissolúveis, são eternos.”

Entendeu alguma coisa? Nada?
No problem, isso apenas significa que você ainda não foi introduzido(a) à mensagem secreta de Cristo, ou seja, à doutrina gnóstica.

No segundo século da nossa era, na cidade egípcia de Alexandria, os cultos teólogos distinguiam entre “pístis”, a fé aceita imediatamente por simples adesão sentimental, e “gnosis”, que representa o raciocínio da fé, o conhecimento das verdades religiosas finalizadas a uma aceitação racional da mesma.
O alicerce do gnosticismo é a filosofia de Platão e, antes do nascimento da corrente gnóstica do Cristianismo, o termo foi também associado aos Mistérios greco-romanos.
De acordo com a filosofia platônica, o processo da criação nada é se não a cópia de “idéias” ou “imagens” existentes, antes da origem do tempo, na Mente de Deus.
Para os Gnósticos, esse conceito é expresso por meio do termo “emanação”: Deus, localizado no centro do Universo não cria, mas emana, entidades chamadas Éons (faíscas divinas) cuja perfeição vai diminuindo na medida em que se afastam dele assim como acontece com a luz que enfraquece quando se distancia da sua fonte.
Deus não emana Éons singularmente, mas em pares ativo-passivo (ou masculino-feminino) complementares que, juntos, constituem as Sigízas que, por sua vez, podem emanar outras Sigízias. Em sua totalidade as Sigízias configuram o domínio divino do Pleroma (a região da Luz) e caracterizam em si os diversos atributos de Deus.

Das primeiras quatro Sigízias, totalmente espirituais, descendem os Éons inferiores até chegar à Alma e à Matéria que constituem o ser humano terrestre.
Infelizmente, a Alma, entrando em contato com a Matéria, foi corrompida por ela caindo nas trevas e tornando-se escrava do mal, da dor e da morte. Uma deterioração reforçada pelo olvido e pela ignorância da própria origem divina, mas que pode ser revertida mediante a Gnose.
Dependendo do grau de consciência existem três categorias de seres humanos.
Os Hílicos, escravos das paixões e das fraquezas da carne; os Psíquicos, ainda não totalmente perfeitos e os Pneumáticos, que renegaram a matéria e optaram pelo espírito.
Cristo exorta os seus discípulos a tomarem consciência da origem divina de todos com essas palavras: “Jesus disse: Mas se não vos conhecerdes, então vivereis na pobreza e sereis a pobreza.” (Tomé, 3).

Mas qual foi a origem do mal, de quem a culpa? Um estudo mais aprofundado da filosofia gnóstica revela detalhes intrigantes. O terceiro Éon inferior, cujo nome é Sophia, teve a presunção de gerar sozinha sem a ajuda do consorte. Como resultado, Sophia deu vida a um monstro, o primeiro arconte, o Demiurgo malvado (identificado com Jahvé do Antigo Testamento). O Demiurgo criou o mundo da matéria e criou também o homem tendo, como modelo, o Adão celeste (sempre presente na Mente de Deus), mas dessa vez preso dentro de um corpo material.
Em seguida, Sophia se arrependeu e Deus, visando o resgate da humanidade, enviou Cristo formando uma nova Sigízia cujos dois Éons eram: Soter (Cristo, o Salvador) e a própria Sophia (o Espírito Santo, a Noiva de Cristo).
Então, para os Gnósticos, o Espírito Santo é expressão da potência e da vontade de Deus, sem deixar de ser hipóstase (substância) dele.
Em síntese, Cristo foi enviado à Terra na forma de um homem (Jesus) para dar aos homens a Gnose necessária para que eles se libertassem do mundo físico e retornassem ao mundo espiritual.

É óbvio que Jesus, sendo um Éon, era constituído de puro espírito; portanto não nasceu, não morreu e nem sequer ressuscitou.
Jesus apareceu repentinamente na Galileia na forma de um ser humano, mas sendo intimamente uma entidade exclusivamente divina; o seu corpo, igual um avatar, não passa de mera aparência. Consequentemente, morte e ressurreição representam eventos puramente simbólicos e o verbo ressuscitar significa “acordar para uma nova vida”, sendo que todo homem deve, com a ajuda de Sophia (o Espírito Santo) acordar e se conscientizar da sua origem divina.
No entanto, o Pai, Cristo e o Espírito Santo não são uma trindade, pois, como já foi explicado, seja Jesus que Sophia são Éons, emanações de Deus, hipóstases do Pai.

Até Paulo de Tarso parece duvidar da realidade material de Cristo quando afirma que: “Mas [Cristo] aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Filipenses 2,7). Paulo usa a palavra “forma” e não substância: uma negação explícita da terrenidade de Jesus.
Nos Evangelhos gnósticos, Cristo não age e não faz milagres, apenas transmite a sua sapiência soteriológica. Todo versículo do texto de Tomé começa com a locução: “E Jesus disse…” reforçando o conceito que Cristo desenvolveu exclusivamente a função de conselheiro espiritual que, com o exemplo de si mesmo e com a revelação das verdades esquecidas pelos homens, fez com que os seres decaídos tivessem como participar da Gnose, ou seja, do conhecimento salvífico.
O percurso gnóstico de salvação decorre de forma gradual e progressiva: conhecimento do bem; sua aceitação; contemplação; elevação mística; identificação com Deus e, de consequência, domínio do universo cósmico.

Temos agora os elementos necessários para compreender o significado profundo e real dos dois versículos citados no começo desse trabalho.
O versículo sete significa que afortunado é o leão (o homem físico, o Hílico) se o homem espiritual (o Pneumático) o domina e o anula; desaventurado é o homem espiritual que se deixa dominar pela sua materialidade.
Quanto ao versículo de Filipe, o significado é o seguinte. O texto visa sublinhar o pensamento platônico da alma prisioneira da matéria, sujeita às forças do mal; as palavras vida, morte, direita e esquerda, servem para reafirmar o conceito de opostos, típico da doutrina gnóstica. As imagens, protótipos perfeitos das coisas (as idéias platônicas), têm suas verdadeiras existências, indissolúveis e eternas, na Mente de Deus.
Em seu conjunto a Gnose, mais que uma ascensão mística, é uma atividade racional de introspecção e de meditação; o conhecimento (gnosis) torna-se necessário para alcançar a salvação com o retorno em Deus, origem e fim de todas as coisas.
No Evangelho da Verdade, escrito em 180 d.C., lemos as seguintes palavras: “Portanto, quem possuir a Gnose, é um ser do alto. Se for chamado, ouve, responde e se dirige para quem o chamou, para subir até Ele, pois sabe o motivo pelo qual foi chamado”.

Do ponto de vista histórico, foi Marcião de Sínope que, no ano 140 d.C., divulgou o seu Evangelho gnóstico na cidade de Roma. Esse Evangelho, destruído pela Igreja nascente, começava narrando que, na época do procurador Pilatos, o Salvador filho de Deus, havia descido do céu perto de Cafarnaum onde iniciou a sua pregação. Toda a narração de Marcião é rica de referências a lugares geográficos, datas e personagens até então desconhecidos.
Anteriormente, sobre a vida de Jesus, circulavam apenas sentenças (logías) definidas “curtas e lacônicas” e foi provavelmente graças às informações históricas e geográficas de Marcião que foram escritos os quatro Evangelhos canônicos.

O Evangelho de Tomé, também conhecido como “O quinto Evangelho”, apresenta uma série de mais de cem logías de Jesus que, em sua maioria, têm uma forma idêntica ou muito parecida aos versículos dos quatro Evangelhos canônicos, embora outras mostrem significados diferentes.
Desde a segunda metade do século passado, os estudiosos tiveram que responder à seguinte importante pergunta: houve uma modificação de tipo gnóstico dos Evangelhos canônicos ou foi uma interpretação contemporânea e independente de uma fonte comum mais antiga?
Já vimos que existiam as logías e, antes de dar uma resposta definitiva, devemos considerar que o Evangelho de João, além das Epístolas de São Paulo, é rico de importantes elementos gnósticos evidenciados desde o primeiro versículo: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.” (João 1,1).
O Verbo é a “carne” de Cristo o seu corpo espiritual de Éon, pois se trata de uma hipóstase de Deus.
Observamos, incidentalmente, que não é por acaso que durante os trabalhos nas lojas Maçônicas a Bíblia está aberta justamente em correspondência do início do Evangelho de João significando que a tradição gnóstica representa, no Cristianismo, o ponto de contato mais direto com a Maçonaria.

Devido as numerosas correspondências entre passos dos Evangelhos gnósticos e os escritos de Paulo de Tarso e de João, chegamos à conclusão que quando esses textos foram escritos (na metade do segundo século) a interpretação gnóstica da mensagem de Cristo era ainda perfeitamente legítima.
Com efeito, no segundo século, o Cristianismo gnóstico teve um grande sucesso tanto em Roma como em Alexandria, mas em seguida foi condenado como heresia e ferozmente perseguido pela Igreja “oficial”.
Por qual motivo?
A razão foi eminentemente política. Os gnósticos tinham certeza que era possível alcançar o conhecimento divino e a salvação mediante revelações pessoais, êxtases e visões, exatamente como acontecera com São Paulo. Para eles quem recebia uma revelação diretamente de Deus possuía uma autoridade incontestável, como os antigos Profetas e os Apóstolos.
Portanto, para os gnósticos o homem Pneumático podia retornar ao Pleroma sem necessitar de alguma intermediação e não, como asseverava a Igreja, por meio da estrutura eclesial derivada dos Apóstolos e os seus sucessores, ou seja, os bispos.

Os defensores da ortodoxia, preocupados diante da possibilidade de perder o seu poder espiritual e político, começaram a suprimir todos os documentos gnósticos que encontraram e desencadearam uma violenta persecução logo após o Concílio de Niceia de 325 d.C.
Como resultado, a doutrina gnóstica, que havia prosperado até o início do quinto século, desapareceu rapidamente junto com os derradeiros vestígios do Paganismo.
Durante mais de quinze séculos, o pouco que se sabia do gnosticismo vinha de poucas citações e comentários hostis da patrística.
Felizmente, em 1945, nos arredores do vilarejo Nag Hammâdi, no Alto Egito, foi descoberta uma biblioteca gnóstica em língua copta.
Foi assim que textos importantíssimos como os Evangelhos de Tomé e de Felipe foram recuperados e traduzidos.

A imagem de Jesus que esses livros nos transmitem é bastante diferente da que foi proposta pelo Cristianismo tradicional: um Mestre de sapiência em lugar de um Messias bíblico, humanamente sábio e por nada obsessionado pela síndrome culpa-pecado tão típica do catolicismo.
Se trata, em suma, de Escrituras isentas daquela atmosfera sobrecarregada de milagres e eventos sobrenaturais que faz dos Evangelhos canônicos livros tão mitológicos e irracionais.
Provavelmente, se o Cristianismo gnóstico tivesse prevalecido, toda a história da Humanidade teria sido outra.

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2 comentários

  1. Gnoses – Isto não seria uma explicação baseado na Física?
    Centro do Universo- Deus Emanação – Éons ou – faíscas – ativos e passivos 😦 explosão inicial expansão de átomos carga positiva e negativa energia luminosa que vai enfraquecendo )
    “Para os Gnósticos, esse conceito é expresso por meio do termo “emanação”: Deus, localizado no centro do Universo não cria, mas emana, entidades chamadas Éons (faíscas divinas) cuja perfeição vai diminuindo na medida em que se afastam dele assim como acontece com a luz que enfraquece quando se distancia da sua fonte.
    Deus não emana Éons singularmente, mas em pares ativo-passivo (ou masculino-feminino) “

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